quinta-feira, junho 22, 2017
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Muitos que não participam dos movimentos de direitos LGBTs se perguntam: afinal, como foi escolhido a data 29 de Janeiro para o Dia da Visibilidade Trans? Como surgiu? O que buscam? E nós explicamos! Foi no dia 29 de Janeiro de 2004 que 27 travestis, mulheres transexuais e homens trans entraram no Congresso Nacional em Brasília para lançar a campanha “Travesti e Respeito”, do Departamento de DST, AIDS e Hepatites do Ministério da Saúde.

Foi a primeira campanha nacional idealizada e organizada pelas próprias trans para a promoção do respeito e da cidadania. Desde então, a data não é só lembrada mas também é comemorada por ativistas travestis, transexuais, gays, lésbicas e parceiros em geral com diversas ações de visibilidade positiva desta população.

Em 2016, por exemplo, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, hoje considerada a maior do mundo, durante diversas reuniões que fez com coletivos, outras ONGs de direitos humanos e militantes independentes, desde o ano anterior, constatou que o segmento T (trans), de todas as letrinhas que compõe o LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros), era, de fato, a mais vulnerável. Por isso o tema da 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo no ano passado foi “LEI DE IDENTIDADE DE GÊNERO, JÁ! – Todas as pessoas juntas contra a Transfobia!”. Uma forma de mostrar a sociedade, além de lutar pelos direitos das pessoas do segmento T, que travestis, mulheres transexuais e homens trans existem e que todos nós estamos cansados de tanta transfobia.

O tema da Parada de 2016 repercutiu tanto que a APOGBLT SP, ONG responsável pela Parada LGBT de São Paulo, lançou inclusive a campanha “Marque-se” com a tag #ChegaDeTransfobia nas redes sociais. Deu tão certo que muita gente “se marcou” não só na Parada como nas redes.

Porém, a luta continua e felizmente, no dia 29 de Janeiro ou nos dias próximos a esta data, diversos militantes em todo o Brasil promovem atividades, palestras, workshops ou passeatas para se fazer ouvir. É o caso, por exemplo, da II Caminhada pela Paz: Sou Trans, Quero Dignidade e Emprego que, neste ano em São Paulo, será realizado no dia 28 de Janeiro no vão livre do Masp a partir das 14h. Diversas ONGs, inclusive a APOGLBT SP, estará presente. No dia 29, Dia da Visibilidade Trans, o mesmo grupo estará lançando o projeto K-Lendárias na Galeria Olido as 15h.

Segundo Renata Peron, responsável pelo Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais (CAIS) e que organiza a caminhada, “Somos apartidários. Queremos que população e a sociedade perceba que travestis, transexuais e homens trans estão a margem mas não queremos estar lá. Por isso estamos gritando até que alguém nos ouça.

Por isso a luta pelos direitos LGBTs, em especial aos grupos mais vulneráveis, é importante e merece a colaboração de todas as pessoas. Aqui mesmo em nosso portal, por exemplo, já noticiamos muitos casos tristes de transfobia que, infelizmente, acontecem diariamente.

Que o dia 29 de Janeiro, o Dia da Visibilidade Trans, ecoe e, como disse Renata Peron, “vamos gritar até que alguém nos ouça“.

 
(Vídeo produzido pelo PreparaNem em 2016 para o Dia de Visibilidade Trans)

Por Tamara Smith*

23 anos depois, a luta continua diariamente contra o preconceito, a cultura do estupro e o machismo; com o tema ”Visibilidade, Saúde e Organização” aconteceu no Rio de Janeiro o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE).

Uma das mais importantes conquistas: um espaço de discussão voltado exclusivamente para lésbicas com o objetivo de fortalecer suas vozes a organização política e condição social; não esquecemos do ”Stonewall Brasileiro” que aconteceu dia 19 de agosto, de 1983 no Ferro’s Bar em São Paulo aonde Rosely Roth com outras integrantes do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF), reivindicaram com o apoio de aliados, de outros coletivos, representantes do poder público e judiciário, o direito de divulgar o jornal Chanacomchana escrito por ela e Miriam Martinho; pois como um local frequentado por lésbicas, recusou o apoio ao trabalho voltado para elas? A conquista repercutiu na imprensa que tratou com devido respeito a ação social de que todos os dias sofriam ameaças e a repressão da ditadura militar.

Os anos passaram, conquistas e visibilidade ganham espaço graças a rapidez para se comunicar e chegar ao inacessível, aos jovens e adultos que buscam ajuda sobre a descoberta de si mesmo(a) e dividem suas opiniões e experiências: fundação de coletivos, ações de militantes independentes sendo reconhecidos por pessoas próximas ou até mesmo de outros continentes.

A discriminação contra as mulheres no esporte, mercado de trabalho e na política vai acabar com a união, agora não é momento de dizer ”sou mais militante do que você…” ou ainda ”sofro mais racismo do que você…”, sem falar no ”sou mais discriminada do que você”.

Se queremos de fato equalidade de direitos e união, diremos:

” Estou com você na luta contra o machismo, a cultura do estupro e o preconceito.”

Dia 29 de agosto, dia da visibilidade lésbica.

 

* Tâmara Smith tem 27 anos, é lésbica, estudante de Comunicação Social/Jornalismo e militante LGBT. Seu twitter é http://twitter.com/aboiola

A primeira ação para a Campanha #VoteLGBT de 2016 foi realizar uma pesquisa sobre o perfil político das pessoas que frequentaram a Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais e a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

Nos dias 28 e 29 de maio, cerca de 60 voluntárias e voluntários realizaram entrevistas com 1.122 pessoas, perguntando sobre suas opiniões com relação ao movimento LGBT, às eleições municipais e à conjuntura política nacional. A elaboração dos questionários e a interpretação dos resultados contou com a colaboração de pesquisadores da USP, Unifesp e Cebrap. A seguir, apresentamos uma síntese dos principais resultados dessa pesquisa.

Atos LGBT são atos políticos

Há uma discussão muito grande sobre se as Paradas LGBT são manifestações políticas ou se são apenas festas, carnavais fora de época. Essa discussão passa, inclusive, pela problematização do conceito de política: ele deve ou não incluir a diversão? No caso da população LGBT, que muitas vezes precisa se restringir aos guetos e à noite para não ser vítima de agressão, o simples fato de se expor à luz do dia numa grande via pública não seria um ato político?

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A Pesquisa #VoteLGBT mostra que, mesmo sem essa problematização, a Parada de São Paulo se alinha ao conceito mais tradicional de manifestação política. Das pessoas entrevistadas, 47,8% disseram ter ido à avenida Paulista por motivações políticas. A importância da visibilidade, a afirmação identitária, a luta por novos direitos, a defesa dos já conquistados e até mesmo o protesto em relação à conjuntura política nacional foram alguns dos motivos mais frequentemente mencionados para a ida à Parada. Para 37,4% dos entrevistados, a diversão era o motivo de ir ao evento.

A Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, por sua vez, manifesta ainda mais claramente sua motivação política por parte de 83,9% das participantes, em contraposição a apenas 7,1% que disseram ter ido para se divertir. A maior politização da Caminhada com relação à Parada foi inclusive um dos motivos mencionados pelas entrevistadas para ter comparecido ao evento.

Concordância com reivindicações do movimento LGBT

Listamos seis das principais reivindicações do movimento LGBT e perguntamos qual era o grau de concordância dos entrevistados com relação a elas. Todas receberam alto grau de aceitação, pelo menos acima de 70%.

Considerando a margem de erro das pesquisas, podemos dizer que o casamento igualitário, o direito de LGBTs adotarem filhos e o direito de travestis e transexuais adequarem seus documentos a sua identidade de gênero tiveram a mesma aceitação total na Caminhada (por volta de 96%) e na Parada (por volta de 92%).

A bolsa de estudos para travestis e transexuais em situação de pobreza, por sua vez, contou com 75,4% de aprovação na Parada. Em todos os outros casos, a concordância total fica acima de 80% e, na Caminhada, nenhuma reivindicação tem mais de 3% de discordância.

LGBTs não se sentem representados pelos políticos

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Apenas 2,7% da Parada e 0,7% da Caminhada concordam totalmente que os políticos representam a população LGBT.

Essa desconfiança se reflete na avaliação de políticos específicos. Jair Bolsonaro (PSC-RJ), deputado abertamente LGBT-fóbico, é o mais mal avaliado, com a reprovação de 96,8% das entrevistadas da Caminhada e 84,1% da Parada. Ele é seguido por José Serra (PSDB-SP): 71% da Parada e 91,2% da Caminhada não confiam no compromisso do senador com a população LGBT.

Histórica aliada do movimento LGBT, a senadora Marta Suplicy teve expressiva rejeição, entre 41,5% dos entrevistados da Parada e 61,6% da Caminhada.

O político com maior grau de confiança é o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ), único congressista assumidamente LGBT e autor do projeto de lei que regulariza o casamento igualitário: 52,3% da Caminhada e 43,3% da Parada declararam confiar muito em Wyllys.

Rejeição a Michel Temer, apoio a Dilma Rousseff e posicionamento sobre novas eleições

A rejeição a Michel Temer na presidência da República foi explícita nas duas manifestações: apenas 7% da Parada e 0,7% da Caminhada desejam que o vice se mantenha à frente do governo federal. A percepção de que o governo Temer não é favorável a LGBTs é ampla: 56,5% da Parada e 87,3% da Caminhada concordam totalmente que Temer representa um retrocesso nos direitos LGBTs.

Na Parada, 53,7% são a favor de novas eleições e 32,2% querem Dilma Rousseff na presidência. Na Caminhada, os números se invertem: 57,9% são a favor de Dilma e 36,3% querem novas eleições presidenciais. O apoio a Dilma é ainda mais explícito na Caminhada, se considerarmos que 61,3% das entrevistadas foram a alguma manifestação contrária ao impeachment da presidenta (na Parada, esse número é de 29%).

Ainda assim, a avaliação das políticas LGBTs do governo da presidenta Dilma é baixa. 47,5% da Parada e 54,3% da Caminhada declararam-se insatisfeitos.

 

Relatório Completo

Os resultados finais da pesquisa estão disponíveis nos seguintes links:
http://votelgbt.com/pesquisa/Caminhada2016
http://votelgbt.com/pesquisa/Parada2016

Para saber mais sobre a VoteLGBT, visite:
https://www.facebook.com/votelgbt

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Tornou-se consideravelmente comum vermos ativistas, sobretudo transfeminitas (como eu), falarem de Teoria Queer. Esses dias, fui interpelada por uma amiga que me perguntava: “Diabéisso de Teoria Queer?”. De fato, é uma forma de saber que a Universidade não tende a ensinar aos estudantes de graduação, e, apesar de existir muito material na internet sobre o assunto, é raro que paremos nossas vidas para procurar um texto que responda: O que é teoria Queer? Antes, contudo, é importante entendermos o que é “queer”. Que termo é esse?

O nome: Queer

Queer é uma palavra inglesa, usada por anglófonos há quase 400 anos. Na Inglaterra havia até uma “Queer Street”, onde viviam, em Londres, os vagabundos, os endividados, as prostitutas e todos os tipos de pervertidos e devassos que aquela sociedade poderia permitir. O termo ganhou o sentido de “viadinho, sapatão, mariconha, mari-macho” com a prisão de Oscar Wilde, o primeiro ilustre a ser chamado de “queer”.

Desde então, o termo passou a ser usado como ofensa, tanto para homossexuais, quanto para travestis, transexuais e todas as pessoas que desviavam da norma cis-heterossexual. Queer era o termo para os “desviantes”. Não há em português um sinônimo claro, talvez, como propõe a professora Berenice Bento, possamos pensar o queer como “transviado”.

A Teoria Queer

A Teoria Queer começa a se consolidar por volta dos anos 90, com a publicação do livro “Problemas de Gênero” (Gender Troube) da Judith Butler. Fruto de uma trajetória que ela já vinha acompanhando desde um seminário, que carregava o nome “queer”, feito nos anos 80, por Teresa de Lauretis. De Lauretis, foi a primeira a pensar em “Tecnologias de Gênero”, aqui entendidas como as técnicas de ser homem ou ser mulher que aprendemos desde cedo.

Nos anos 70, as universidades americanas, são tomadas (ainda bem), por movimentos populares, e começam a criar os chamados “Estudos Culturais” como forma de dar conta da compreensão do crescente Movimento Negro – marcadamente os Panteras Negras – e para dar conta de outros movimentos como o “Free Speech” (Liberdade de Expressão), e do movimento feminista – com a criação dos Women Studies. Assim como outros movimentos, como os movimentos gay e lésbicos. Antes de prosseguir sobre “O que é a Teoria Queer”? Acho importante fazer uma pausa para historicizar o conceito de “Gênero” , pois a Teoria Queer é sobre tudo aquilo que escapa a nossas formulações habituais. Às formulações do senso comum.

Norrie
Primeira pessoa no mundo a conseguir registro civil como gênero neutro. Nem homem e nem mulher. Isso ocorreu na Austrália e seu nome é Norrie.

Gênero

Não é possível falar em Teoria Queer sem pensarmos na categoria de “Gênero” como sendo algo fluido, socialmente construído, performado e sistêmico. Parafraseando Teresa de Lauretis: um sistema sexo-semiótico, de interpretação dos dados biológicos como produtores de diferenças, que não são per si, mas produtos da interpretação arbitrária dos “marcadores biológicos”. Existem, ainda segundo a autora “Tecnologias de Gênero”, ou seja, construção de técnicas de viver que determinam como um sujeito pode se inserir na sociedade segundo normas específicas de “ser homem” ou “ser mulher”.

Gênero é um conceito que surge fora da gramática e da linguística, aproximadamente nos anos 1950, quando o Dr. John Money, da Universidade John Hopkins, o utiliza no estudo da redesignação sexual de pessoas intersexuais. Neste caso, John se pergunta: Se estas pessoas nasceram com genitália ambígua, como é possível que o genital seja fator decisivo na constituição do gênero? Não pode ser. Então, utiliza-se de tal conceito, para designar o resultado de seu tratamento de “reorientação do gênero” das pessoas intersexo. No entanto, o modelo de compreensão do Gênero proposto por ele se mostrou falho, e hoje existem movimentos e demandas de pessoas intersexo para que elas tenham autonomia na decisão do gênero ao qual se identificam, e não fiquem a mercê de uma decisão médico-familiar. Entretanto, não podemos desconsiderar que John Money avançou no descolamento do gênero e do genital. Uma relação direta e não arbitrária, para compreendê-los, como distintos , possibilitando, apesar de seus erros, desdobramentos teóricos importantes.

Paralelamente aos estudos de John Money, começaram a surgir, dentro das universidades, demandas para que existam estudos e disciplinas, até então consideradas não acadêmicas, como os estudos negros, latinos, feministas,… Demandas que surgem, não no seio das universidades, mas a partir de vários movimentos sociais nos EUA. Dando origem, assim, aos estudos culturais, negros, e ao campo conhecido como Women Studies. É no âmbito dos “Estudos das Mulheres” que o conceito de Gênero passa a figurar de forma semelhante (cof) ao que conhecemos hoje.

A partir da afirmação já famosa de Simone de Beauvoir em seu livro “O Segundo Sexo” – ” Não se nasce mulher, se chega a sê-lo” – que inicio um parênteses. Essa afirmação de Simone, não é uma afirmação diretamente sobre “Gênero”, mas sobre a mulher, que para Beauvoir, não era compreendida como um “outro”, mas como uma subalternidade que só podia se constituir em relação ao sujeito “homem”, em sua dependência. O devir mulher, não poderia, na ótica de Beauvoir, caber em um entendimento do “devir homem”, de modo que, os primeiros estudos feministas, nos trazem uma ótica ainda essencialista de “diferença de gênero”, diferença essa que continua a se constituir a partir de novas interpretações dos dados biológicos.

Os Estudos Feministas, até então, se centravam em um determinado sujeito, em uma determinada mulher, até que surgem, com Angela Davis, e outras feministas negras, latinas, operárias, lésbicas (com grande enfoque no “continuum lésbico” de Monique Wittig, em seu livro “O pensamento heterossexual”), a crítica a este sujeito do “feminismo clássico”, ou seja, a crítica a um feminismo que havia se mostrado branco, de classe média, acadêmico e elitista. Ainda neste período surgem também, os “Estudos de Gênero” que constroem uma crítica ao feminismo, ao pensar as “masculinidades”, aliadas aos estudos Gays e Lésbicos, oriundos das demandas sociais que surgiram após a Revolta de Stonewall.

É neste momento que “Gênero” passa a ser concebido em sua fluidez e a afirmação de Simone de Beauvoir é ampliada, a partir de um questionamento simples: “Se existe um devir mulher, porque não poderia existir um ‘devir gênero’?”. Entretanto, apesar deste questionamento, os estudos e movimentos gays e lésbicos se tornaramm higienizados, defendendo um corpo gay desejável, belo, e sobretudo, heteronormativo. É criado, como diria Guacira Lopes Louro em seu texto “Teoria Queer- Uma política pós-identitária para a educação”, uma identidade gay “positiva”, e, obviamente, essa identidade positiva, subentende a construção de uma identidade “negativa”, geralmente associada ao gay afeminado, à travesti, e às lésbicas masculinizadas e homens trans.

Neste momento ainda não havia uma distinção teórica clara entre Identidade de Gênero e Sexualidade, tal distinção se produz apenas com o trabalho teórico da antropóloga feminista Gayle Rubin, em seu artigo “The Traffic in Women: Notes on the ‘Political Economy’ of Sex”. Artigo no qual ela afirma ser necessário pensar como categorias radicalmente distintas a sexualidade e o gênero, mesmo que, em determinados momentos, como posteriormente nos mostra Judith Butler (em seu livro, “Gender Trouble”), tais categorias se amparem em sustentação mútua da cis-heteronorma.

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É neste contexto da higienização das identidades “gays e lésbicas” e do questionamento da identidade do “ser mulher” e do ” ser homem” que surge um movimento pautado nas diferenças, portanto não-assimilacionista, como ferramenta de crítica. Tal movimento é teórico e também social, a “Teoria Queer”, termo agora ressignificado como forma de empoderamento. É neste momento, a partir de uma associação teórica com os estudos pós-estruturalistas de Deleuze, Derrida e Foucault, que se começa a pensar o próprio Gênero como “ficção política encarnada”, termo cunhado por Paul. B. Preciado em palestra dada no “Hay Festival”, em Cartagena.

No bojo destas discussões surge também a reflexão sobre a travestilidade e a transexualidade como experiências de gênero – a transfeminilidade como uma forma de mulheridade. Essa compreensão é importante, quando nos deparamos com discursos essencializadores do ser mulher. Judith Butler, em seu livro “Gender Trouble”, inicia com um questionamento que considero vital: “Quem é o sujeito do feminismo?”, ” É possível, pensar de forma categórica e universalizante em ‘mulher’?”. A resposta, obviamente é “não”, é possível pensar em “mulheres”, em “mulheridades”, em vivências femininas, mas não é possível universalizá-las na produção de um conceito identitário imutável.

É neste sentido que a vivência das mulheres trans, das travestis e das pessoas não-binárias que se identificam com a feminilidade podem ser compreendidas como vivências femininas, e que devem ser respeitadas como tal. Obviamente, há diferenças na vivência de uma mulher cisgênero e de uma mulher trans. Disso não há dúvidas, entretanto, ambas possuem vivências de suas feminilidades, das opressões diárias, dos enfrentamentos a partir de uma perspectiva do feminimismo.

Afinal, o que é a Teoria Queer?

É importante notar que a Teoria Queer não propõe um modelo “queer” de mundo. O queer é justamente o estranho. É aquele que se narra ou é narrado fora das normas. A Teoria Queer propõe o questionamento às epistemes (pressupostos de saber), ao que entendemos como verdade, às noções de uma essência do masculino, de uma essência do feminino, de uma essência do desejo. Para a Teoria Queer é preciso olhar para esses conceitos e tentar perceber que não se tratam, de forma alguma de uma essência, ou mesmo, que não há uma ontologia do todo, mas, no máximo, uma relação de mediação cultural dos marcadores biológicos.,

A teoria queer, como diria meu querido Paul Preciado, é uma teoria de empoderamento dos corpos subalternos, e não o empoderamento assimilacionista. O empoderamento que nos faz fortes em nossas margens e ocupar os espaços com nossos corpos transviados.

A Teoria Queer e o Brasil

Queer não é um termo inteligível no Brasil. As pessoas não se descrevem como queer por aqui. Ao menos, não as pessoas que não tem acesso a essa teoria. Mas no Brasil, os mesmos processos de normatização e subalternização dos corpos estão presentes. Aqui não há o queer, mas há “o traveco”. Não há o queer, mas há “o viadinho”. Não falam queer, mas falam “a sapatona”. Acredito, que a Teoria Queer, possa nos ajudar a construir uma teoria transviada nossa. Que empodere nossos corpos subalternos.

Como bem ressalta a transfeminista Daniela Andrade, os termos “transviada ou transviado” não englobam pessoas trans, pois supõe uma mistura, até conceitual de identidade de gênero e sexualidade, coisa que nós, homens trans, mulheres trans, travestis e pessoas trans de uma forma geral, temos lutado imensamente pra distinguir uma da outra.

A tensão Teoria Queer e Identidades Não binárias:

É fato que ninguém é transexual simplesmente por ter “aprendido com a Teoria Queer” ou qualquer outra teoria. Muito antes dessas teorias já existiam as pessoas trans. Eu escrevo desde um lugar muito específico: travesti, gorda, pobre, acadêmica e não binária. A Teoria Queer enfatiza que o gênero não é uma verdade biológica, mas um sistema de captura social das subjetividades. Isso significa que não somos nada ontologicamente? Não. Significa que existe uma percepção, por vezes disruptiva, entre como me sinto e como a norma diz que devo me sentir.

A percepção subjetiva que tenho de mim, é minha e não cabe a nenhuma teoria definí-la. Entretanto, a enunciação disso, ou seja, a capacidade de dizer, enquanto ato de fala (como nos diz Austin), e performance, passa pelo conhecer.

Eu nasci e cresci na periferia de São Paulo, e agora vivo na periferia de Caucaia, no Ceará. Na periferia, não existem, aos olhos da norma, pessoas não binárias. Eu mesma, ao longo de toda a minha vida nunca me percebi como homem, nem como mulher. Eu era “o gayzinho” e “o viadinho”, depois que descobri a transgeneridade é que percebi que eu podia enunciar o que sou: sou travesti não reivindico ser mulher, não reivindico ser homem, mas essa é uma posição minha. Eu reivindico sim a feminilidade.

A tensão reside quando alguns ativistas querem negar tudo que é acadêmico. Não é possível fazer isso! As pessoas trans, precisam adentrar a academia, que é uma instituição produtora de conhecimentos lidos como verdade, e narrar suas próprias vivências. É necessário ocuparmos os espaços que sempre nos foram historicamente negados. A academia é instrumento. Assim como o saber o é. A primeira travesti brasileira a obter o título de doutora foi minha muito amiga Luma Nogueira de Andrade. Ela sempre frisou que o caminho dela para a emancipação estava na educação, no acesso ao saber e ao conhecimento.

As identidades não binárias como a minha e muitas outras são de difícil intelecção pra quem não é da academia. Isso porque não há trabalhos acadêmicos sobre o tema, e porque não há critérios visuais de identificação do “não binário”, e sabemos que, para o olhar da norma, a leitura, ou seja, a capacidade de intelecção, é vital para o processo de taxonomização. Ano que vem sairá um artigo meu, em uma revista americana sobre o universo “não binário”. Mas devemos lembrar que é importante reconhecer que a academia e a Teoria Queer são ferramentas que podemos usar para materializar o discurso sobre nossas identidades.

Austin dizia que falar é fazer. Que a linguagem e os atos de fala, tornam as coisas reais no mundo porque constrangem seu entorno. A academia, marcadamente a Teoria Queer e a desconstrução de Derrida trouxeram a ideia dos binários e dos não binários a serem rompidos e desconstruídos. Por que, então, não usar as ferramentas e construir um saber que emerge das nossas vivências?

Paulo Freire sempre dizia, que o saber popular precisa manter com o saber acadêmico uma relação de mão dupla, dialógica. A teoria não constrói nossa identidade, mas nos ajuda a enunciá-la e as vezes, a afirmá-la politicamente. É errado, portanto, exigir de travestis e pessoas trans que aceitem a teoria queer. Ou que saibam dela. Principalmente quando muitas, a maioria de nós na verdade, está fora da escola e da universidade. Enquanto nos prostituimos, não temos tempo pra pensar o “pronome” mais apropriado a ser usado. Mas isso não implica na negação de todo e qualquer saber acadêmico. É preciso conciliar as vivências com a academia, e na fusão delas, produzir um pensar e uma política identitária marcadamente brasileira.

Um apelo final

Precisamos imensamente construir um saber nosso, um saber dos corpos subalternizados brasileiros. Não somos os mesmos corpos norte-americanos. Somos corpos com nossas próprias marcas e precisamos, a partir delas, constituir uma teoria que nos empodere para, a partir daí, podermos começar a pensar numa política das identidades. Há de se convir que o termo “queer” está na moda. Muitos se narram como queer, porém, é uma pós-modernidade que sai com água, e cujo emprego sugere privilégios. Queer não é arrasar na balada. É uma narrativa de si, uma narrativa constante.

É comum muitas pessoas rejeitarem o termo queer dizendo que “isso é academicismo”. Ora, tudo bem, mas enquanto as pessoas trans não lutarem por si e pelas suas companheiras, não seremos capaz de produzir um saber formal a partir de nossas vivências. Um saber próprio para a experiência brasileira da não conformidade as normas de gênero. Contudo, a simples negação do termo nos conduz ao risco do colonialismo. De deixarmos espaço para que nossas identidades sejam vistas apenas com o olhar colonizador de um termo e teoria estrangeiros. Por esse motivo, se faz necessário que levemos esse debate para além da academia e dar voz às diferentes maneiras com que pessoas trangêneros brasileiras narram suas histórias.

Texto de Helena Vieira, publicado originalmente aqui.

Todo cuidado é pouco, segurança e respeito caminham de mãos dadas

Como todo grande evento, todo cuidado é pouco. Por isso nós, da Assessoria de Imprensa e Comunicação da APOGLBT pedimos que você não apenas leia as informações abaixo mas também compartilhe nas redes sociais para todos os seus amigos!

Segue nossas dicas:

– A Parada do Orgulho LGBT começa as 10h e, diferente dos outros anos, os trios começaram a andar a partir do meio dia. Chegue cedo;
– Deixe o carro em casa, dê preferência ao transporte público e alternativo;
– Ônibus e outras comitivas de interesse próprio devem respeitar o trânsito e não estacionar em lugares proibidos;
– Evite ir sozinh@ a Parada, combine com amigos e marque um ponto de encontro caso se percam;
– Use roupas leves e beba muita água durante o percurso;
– Evite bolsas e mochilas, carregue seu documento de identificação, cartões e pouca quantidade de dinheiro;
– Cuidado com furtos (e roubos), evite levar aparelhos eletrônicos de grande valor, como câmeras fotográficas e smartphones;
– Não reagir a provocações. Ao identificar qualquer ato discriminatório, comunique imediatamente o policial militar mais próximo;
– Durante a caminhada, dê atenção as pessoas com pouca mobilidade, que possuam alguma deficiência, crianças, pessoas com crianças no colo e claro, a nossa turma da melhor idade;
– Se fizer muito sol, não esqueça o protetor solar;
– Preserve praças, monumentos e outros patrimônios públicos durante o percurso;
– Utilize os banheiros químicos;
– Jogue lixo, no lixo;
– Evite consumo excessivo de bebidas alcoólicas, além do mais, pessoas vulneráveis são alvos fáceis de criminosos;
– Foi vítima de assédio ou foi testemunha? Denuncie imediatamente aos policiais militares;
– Não colabore com o comércio ilegal, não ao vinho químico. Compre bebidas e alimentos de vendedores credenciados e uniformizados;
– Caso precise de atendimento médico, procure pelos postos ambulatoriais no trajeto;
– Respeite os nomes sociais e identidade de gênero, das travestis, mulheres transexuais e homens trans;
– Respeite os seguranças, cordeiros, agentes de apoio, policiais militares, guardas civis metropolitanos, bombeiros e voluntários da APOGLBT SP;
– O evento é uma mistura de alegria com militância LGBT, caso possa, leve cartazes e faça seu protesto consciente e, de preferência, com o tema da Parada do ano. Mais informações em http://paradasp.org.br

E não se esqueça de curtir nossa página no Facebook:
https://www.facebook.com/paradasp

Quando criei alguns projetos na Internet para levar informações sérias e respeitosas sobre a homossexualidade, comecei a receber um número significativo de e-mails de pessoas, pais, professores, psicólogos, amigos, entre outros profissionais, a respeito das questões que envolvem o tal “homossexualismo” (termo, inclusive, em desuso nos dias atuais por ter conotação de doença).

Como eu nunca consegui responder a tantos e-mails, resolvi pesquisar sobre a homossexualidade e escrever um livro sobre ela. Para meu espanto, em 2006, eu descobri que o “problema” da homossexualidade é algo muito maior do que imaginamos. Não é apenas um problema da homossexualidade, mas sim da sexualidade humana em geral. Sim. Temos um sério problema de educação sexual não só no Brasil mas em diversos países do mundo. Não sabemos nada sobre sexo. A família, em muitos casos, joga a responsabilidade para a escola e a escola, com menos condições, joga a responsabilidade para a família. E daí? A família, sem saber nada sobre ela, acaba passando tudo o que ela sabe aos demais: exatamente nada.

Então, se temos um problema de educação sexual e muitos assuntos sobre a sexualidade humana são obscuros, imagina então sobre a homossexualidade? Que sempre foi condenada pela religião e também, em determinado momento, pela ciência (justamente quando a ciência e religião caminhavam juntas). Alias, para terem ideia, até a masturbação, segundo a ciência, algumas décadas atrás era a causa da epilepsia, poderia ter perda de sangue e em alguns casos até levar a morte. Isso para termos ideia do quanto já fomos errados em diversos conceitos, inclusive cientificamente (e sim, isso esta em livros médicos respeitados de poucos séculos atrás).

Logo, neste cenário humano, se você for estudar a homossexualidade, verá que o preconceito é muito maior do que imaginamos. Felizmente, consegui colocar tudo isso em um livro de fácil acesso e leitura, chamado O ARMÁRIO e que já vendeu mais de 4 mil exemplares. O livro, dividido em duas partes, fala sobre a minha descoberta, focada apenas na minha “saída do armário” (afinal, minha vida não é diferente da de muitos) e a segunda, mais científica, faz um breve panorama histórico sobre a religião, ciência, família, psicologia e os processos psíquicos que são envolvidos nestas questões do preconceito, incluindo a homofobia internalizada (tão comum em homossexuais, até mesmo nos “assumidos”) e a questão muito pertinente do machismo.

E não para por ai. Como me formei em psicologia, e esse sempre foi o meu mal estar da formação, faço uma crítica feroz aos estudantes e formados de psicologia quando o tema é a homossexualidade. Infelizmente, nas faculdades de psico, não é dado a disciplina de sexualidade humana. Logo, o preconceito, a ignorância e a desinformação também paira por lá (eu mesmo não tive e sei que muitos não tiveram, não tem e nem terão!). O que é ruim, afinal, muitos homossexuais acabam parando em consultórios psicológicos com dúvidas relacionadas as suas questões sobre a orientação sexual e nem todos os profissionais estão preparados para melhor atendê-lo. Como também cito no O ARMÁRIO o profissional, com toda a sua formação, terá ferramentas capazes de atender muito bem um homossexual em seu consultório clínico, mas não compreenderá toda a vivência homossexual, seus conflitos e pode acontecer, como acontece, deste profissional pertencer a alguma religião que condena a homossexualidade e, sem perceber, também condená-la em seu paciente.

Sim. Novamente, como cito no meu livro, um professor de uma faculdade de psicologia em São Paulo, uma faculdade renomada inclusive, recentemente disse que o “homossexualismo” era uma doença para quase 80 alunos do quarto ano do curso de psicologia. Isso agora. Não falo de décadas atrás. Por outro lado, existem diversos profissionais sérios e capacitados para falar com propriedade quando o tema é psicologia e a homossexualidade. Conheço um psicanalista, por exemplo, que tem um trabalho acadêmico internacional dentro deste tema. E isso é realmente fantástico.

Logo, devemos ter muita atenção quando realizarmos estudo/pesquisas que envolvem estes dois temas: psicologia e a homossexualidade. Como a própria Internet, existe um mar de informações desencontradas e é justamente por isso que precisamos ter boas referências, bons livros, bons estudos e achar um bom caminho, onde a homossexualidade é vista como ela é de fato: apenas uma vertente saudável da sexualidade humana.

E que a psicologia, estudantes, formados, professores e profissionais da área, comecem a deixar seu preconceito de lado e estudar esta parte humana que, querendo ou não, faz parte do ser humano. Somos seres completos e, por isso, sexualizados.

Fabrício Viana*

*Fabrício Viana é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT, entre eles O Armário (sobre a homossexualidade), Ursos Perversos (contos), Orgias Literárias da Tribo (coletânea premiada duas vezes) e seu mais recente sucesso chamado Theus (romance gay). Seu site com suas redes sociais é www.fabricioviana.com

 

Entre gays e “não gays” encontramos diversos indivíduos considerados “neuróticos” ou com algum desequilíbrio emocional. Infelizmente isso é “quase” comum nesta sociedade nem tão boa como imaginamos.

Claro que a homossexualidade, em si, não é o fato dessa desordem, afinal, hoje sabemos que ela não é considerada doença pela comunidade médica e científica (a homossexualidade é apenas uma expressão natural da sexualidade humana, e apenas isso!). O que causa a neurose são os conflitos que o indivíduo possui entre seus desejos (ID) e o que a sociedade impõe (superego), que faz com que o mesmo (ego) se torne fragilizado.

Se a sociedade não fosse tão preconceituosa e os homossexuais não aprendessem desde pequeno que seus desejos são “errados” (isso gera inclusive uma homofobia internalizada neles), é muito provável que muitas neuroses deixariam de existir. Isto é, nem seriam criadas.

Entretanto, quanto maior o desejo e quanto mais reprimido ele for pela sociedade (ou mesmo pelos pais), mais forte se torna o ciclo “neurotizante”, ao ponto de, com o tempo, podendo apresentar reações psicossomáticas, psicomotoras (famosos “tiques nervosos”), de isolamento, confusões mentais e até psicoses (loucura). Entre outros sintomas de desequilíbrio mental, como um dos casos que cito no meu livro sobre a homossexualidade chamado O Armário:

Para termos uma ideia mais precisa do quanto complicado é viver uma vida dupla, de mentiras e com grande desperdício de energia psíquica, vamos a um caso bem interessante de um rapaz. Noivo e com uma vida bastante conturbada, ele começou a criar – para sua futura esposa, amigos e familiares – desculpas para sair à noite, conhecer rapazes e ter seus encontros puramente sexuais (afinal, é a única coisa que poderia fazer nestas suas breves saídas – saciar seus desejos). Porém, a frequência com que saía aumentava ao ponto dele precisar criar histórias e personagens para suas desculpas, para que ninguém desconfiasse da verdade. A mais utilizada era a de que ele estava indo para a casa de um colega de trabalho resolver pendências, colega que só existia em sua mente. Para que a desculpa não fosse sempre a mesma, ele inventou uma filha desse colega, e que sempre o ajudava levando-a para o hospital (pois ela fazia um longo tratamento, segundo ele). Quando essa história também se saturava, ele criava outro personagem, um outro amigo de trabalho, um outro parente deste colega, uma tia com que tinha perdido contato desde pequeno, mas que morava em outra cidade, e por aí foi. Em apenas dois anos, esse rapaz se encontrava em uma situação muito complicada. Ele criou tantos personagens e tantas histórias em sua mente, para dar as desculpas, que foi parar em um tratamento psicológico em estado grave (quase de psicose) com o objetivo de tentar separar quem de sua vida era real e quem era imaginário (criado por sua mente), pois ele não sabia mais ‘quem era quem’.(página 97 e 98, livro O Armário)

Logo, a matemática de uma vida dupla é simples: se você tem uma pilha e usar metade de sua energia para uma vida saudável e a outra metade com o objetivo de “esconder-se”, é diferente de usar a mesma pilha/energia 100% ao seu favor, isto é, “fora do armário” e sendo você verdadeiramente em qualquer lugar com todos os seus desejos e com uma vida afetiva e sexual plena e satisfatória. Algumas empresas já sabem disso, segue mais um trecho do meu livro:

Algumas empresas de recursos humanos já sabem, por exemplo, que um rapaz no trabalho que não é assumido gasta muito mais energia escondendo seus desejos e vida homossexual do que outro – também homossexual – que não precisa escondê-los. Optam por aquele que é assumido, afinal, ele produzirá muito mais que o outro.

Claro que chegar a este ponto não é algo inatingível, acredito que, se muitos conseguem, você e qualquer pessoa também pode conseguir. Tudo bem, sabemos que isso não acontece de um dia para outro. Tudo depende de você e do caminho “lento” ao objetivo final, mas se você não começar a batalhar por sua vida e por sua felicidade, quem irá? Lembre-se de que, a única pessoa que sabe o que é melhor para você é você mesmo. Se escolher “sair do armário“, ótimo, parabéns e ao mesmo tempo esteja preparado para as grandes dificuldades que irá encontrar. Se escolher continuar “no armário”, ótimo também. Mas você não acha que vai desperdiçar grande energia onde poderia investir?

Digo isso pois é comum homossexuais assumidos, quando chegam ao seu “último estágio de aceitação”, pararem e pensarem: “como é gostoso ser quem realmente eu sou, não ter que esconder minha orientação sexual para amigos, familiares, colegas de trabalho ou estudo”. Tiro isso por mim e por muitos amigos, de todas as idades, que vez ou outra, comentam sobre. Lembrando que, não basta apenas sair do armário, também precisa – e isso é muito importante – livrar-se completamente da homofobia internalizada, que muitos homossexuais, mesmo assumidos, carregam consigo. Falo também no meu livro. Lembrando que ele não é vendido em livrarias, apenas neste link (144 páginas) ou a versão digital no site da Amazon Brasil

Portanto, o que vale, realmente, é refletirmos sobre tudo isso. E divulgar essa matéria para o máximo de pessoas possíveis. Precisamos ter uma vida autêntica antes de tudo.

Abraços fraternos,

 

Fabrício Viana*

*Fabrício Viana é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT, entre eles O Armário (sobre a homossexualidade), Ursos Perversos (contos), Orgias Literárias da Tribo (coletânea premiada duas vezes) e seu mais recente sucesso chamado Theus (romance gay). Seu site com suas redes sociais é www.fabricioviana.com

Essa situação infelizmente acontece todos os dias em estabelecimentos públicos e privados

Alguns locais possuem normas sobre não ter qualquer tipo de discriminação entre colaboradores e clientes, mas e os lugares que ignoram a Lei Estadual 10.948/2001 e expulsam clientes ou até mesmo funcionários por conta da orientação sexual e identidade de gênero?

Artigo 1.º – Será punida, nos termos desta lei, toda manifestação atentatória ou discriminatória praticada contra cidadão homossexual, bissexual ou transgênero.
Artigo 2.º – Consideram-se atos atentatórios e discriminatórios dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos homossexuais, bissexuais ou transgêneros, para os efeitos desta lei:
I – praticar qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica;
II – proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público;
III – praticar atendimento selecionado que não esteja devidamente determinado em lei.”

Para denunciar o ato discriminatório é necessário o registro via internet, escrita, carta, telegrama ou similar em órgãos públicos (Delegacia Civil, DECRADI) e/ou organizações não governamentais em defesa dos direitos humanos. O sigilo do autor da denúncia é garantido para segurança do mesmo, pois é importante detalhar o fato com identidade, características dos autores do ato discriminatório, local, data e horário.

Feito esse procedimento, a Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania analisará a denúncia para impor as penalidades cabíveis que varia desde multa até cassação definitiva da licença estadual para funcionamento.

Onde denunciar? Acesse o materiais de apoio da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/34/documentos/cartilhas/DirTrans.pdf

http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/34/documentos/cartilhas/dscrmn.pdf

Fonte: http://www.defensoria.sp.gov.br

Tâmara Smith*

* Tâmara Smith tem 27 anos, é lésbica, estudante de Comunicação Social/Jornalismo, militante LGBT e assessora de imprensa da APOGLBT. Seu twitter é http://twitter.com/aboiola

 

Quando você contou para a sua família que você é lésbica?

Quando eu disse “mãe, eu gosto de garotas, sou lésbica…” meu mundo mudou, ficou mais leve e livre, porque não precisava mais ”inventar verdades” como aniversários de amigos, churrasco na casa de colega, dia extra de trabalho no feriado… e os avisos? Todos mudaram para o que realmente acontecia:

''Mãe, vou na casa da minha namorada depois do trabalho...''
 '' Pai, você conhecerá a sua nora amanhã, naquele jantar...''
 ''Amor, a minha família te adora!''

Acima de tudo é importante não ter medo de dar o primeiro passo, sair do armário, aquele mundo de mentiras para satisfazer a visão de outras pessoas têm sobre você. A pergunta é simples: quem, de fato, traz felicidade para você?

Claro que tudo tem o momento certo, desde que você esteja segura com você mesma e com o novo mundo que descobrirá. Será fácil? Não, porque o preconceito infelizmente está entre nós, as nossas pequenas ações, por mais simples que sejam, como andar de mãos dadas, abraçar e beijar a namorada em público, ir a um evento e expressar a alegria de ser livre para amar quem você quer, levar a namorada para conhecer a família, mudar o status de relacionamento nas redes sociais e marcar a mulher da sua vida nas publicações fofas, não será mesmo fácil, mas gratificante! Essas pequenas (mas grandes!) atitudes servirão de motivação para outras mulheres também darem seu primeiro passo. Afinal, ninguém está sozinha. Você não está sozinha. Não estamos sozinhas.

Aliás, são nos momentos que precisamos de amparo é que conhecemos quem são os nossos verdadeiros amigos, conhecemos o amor incondicional da família que sempre deseja a nossa felicidade independente das nossas escolhas.

Quanto mais amig@s, maior a nossa rede de informações e troca de experiências culturais. Portanto, não tenha preconceito com o novo e, após se assumir, simplesmente viva cada dia porque você e eu já estamos unidas de alguma forma. Pensem nisso. 🙂

As pequenas atitudes se transformam em grandes conquistas.

Tâmara Smith*

* Tâmara Smith tem 27 anos, é lésbica, estudante de Comunicação Social/Jornalismo, militante LGBT e assessora de imprensa da APOGLBT. Seu twitter é http://twitter.com/aboiola

18ª PARADA LGBT-SP-04-05-2014-FOTOS JOCA DUARTE (201 de 489)

Publicado originalmente na Revista G Magazine, em 2006.

Desde que me entendo por gay e estudioso do assunto, reparo que inúmeras pessoas protestam, reclamam e criticam a Parada do Orgulho LGBT, independentemente do local onde ela é feita. Eu entendo todas elas pois no início eu também criticava, como também não concordava com o jeito de ser de outros gays, principalmente aqueles que apresentavam trejeitos ou afeminações (sim, eu também já reproduzi, sem saber, esse machismo ridículo). Acredito que tudo é uma fase e só abrindo mais a cabeça para a diversidade é que podemos entendê-la, respeitá-la e admirá-la. Além de ter plena consciência de sua realização (como é feita) e principalmente: o que nós, que tanto reclamamos e criticamos, fazemos para que as coisas melhorem.

Esse artigo foi pensado na virada deste ano, quando eu estava na praia e uma menina muito simpática comentou na rodinha de amigos sobre um detalhe da Parada LGBT de São Paulo. Ela falava com muita indignação sobre a grande distância entre dois trios elétricos durante o percurso, dando a entender que isso era um problema gravíssimo dos organizadores da manifestação social. Nesta hora eu perguntei a ela: Você tem ideia de quantas pessoas organizam este evento? Você tem ideia do trabalho que eles têm e das dificuldades que possuem para organizar a parada do orgulho LGBT?

Depois disso fiquei pensando, se tivessem mais pessoas trabalhando e fazendo algo, talvez tivesse uma equipe só pra ver esse problema “gravíssimo” que ela apresentava. Mas não. Não tem tanta equipe assim e as pessoas que estão lá, batalhando o ano inteiro (e não só meses antes como pensam alguns) têm que se preocupar com coisas muito mais importantes que a distância dos carros. Citei-a para entrar neste assunto, mas as críticas são gerais. Como disse, eu também já compactuei com algumas, mas quando não entendia o real valor da palavra DIVERSIDADE. Para mim, no PASSADO, todo homem gay deveria ser homem (sem trejeitos), a parada gay não poderia ter drags, pessoas fantasiadas, palhaços e muito menos se parecer com um carnaval. Achava que tudo isso não ajudava em nada em nossa imagem. Mas qual seria nossa imagem? Hoje, eu entendo que nossa imagem é a imagem da DIVERSIDADE HUMANA. Não podemos discriminar e nem recriminar todas as “expressões” da nossa comunidade. Existem gays, travestis, transexuais, barbies, fashionistas, ursos, simpatizantes, pessoas fantasiadas, drags, crianças, famílias e tudo isso faz parte da comunidade dita “gay”, ou “LGBT” (sendo mais politicamente correto). E a Parada do Orgulho LGBT, de São Paulo ou de qualquer outra região, nada mais é que um grande dia para mostrarmos a sociedade que nós, que sempre somos invisíveis para eles, EXISTIMOS. E existimos com todo o prisma de cores que o arco-íris possui.

Para aqueles que acham que falta política, falta mais protesto neste grande dia, que faça alguma coisa e lute por aquilo que acredita. Leve uma faixa, faça um cartaz, coloque uma camiseta com dizeres de protesto e“grite” para o mundo a militância que sente falta. Não espere que os outros façam aquilo que você acha “ideal” em uma Parada do Orgulho LGBT. E se puder, convença até amigos mais próximos a fazerem a mesma coisa. Mesmo porque, política e luta não é feita em apenas um dia. É necessário lutarmos todos os dias por nossos direitos. Mas ninguém pensa nisso. Ninguém se compromete. Ninguém dá a cara à tapa e faz alguma coisa. Só criticam, criticam e criticam tudo.

Quando era mais novo, trabalhei ao lado do Teatro Municipal de São Paulo e ao meio dia havia um protesto de camelôs. Olhei para meu chefe e fiz uma crítica tremenda sobre a administração da cidade. Ele olhou pra mim e pediu para parar de criticar. Falou que críticas tanto eu quanto metade da cidade teríamos contra ela, mas ir lá e fazer alguma coisa pra melhorar, ninguém fazia. Que, ao invés de criticar qualquer coisa, deveria arregaçar as mãos e partir para ação de melhoria ou permanecer calado. Mas jamais criticar por criticar. Qualquer coisa que seja. Foi uma lição e tanto. Hoje vejo que tem muita gente que precisaria dela. Para “acordar” e finalmente fazer algo por todos nós. Ao invés de só reclamar. Então, antes de criticar a parada, antes de falar mal de alguma coisa que se refere a luta por nossos direitos, olhe pra si, veja o que você faz para ajudar ou melhor, o que poderá fazer para contribuir na luta por uma sociedade melhor. E não só neste dia, mas durante todo o ano.

Fabrício Viana*

*Fabrício Viana é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT, entre eles O Armário (sobre a homossexualidade), Ursos Perversos (contos), Orgias Literárias da Tribo (coletânea premiada duas vezes) e seu mais recente sucesso chamado Theus. Do fogo à busca de si mesmo (romance gay). Seu site com suas redes sociais é www.fabricioviana.com