quinta-feira, julho 20, 2017
Entrevistas

Por Leonan Oliveira

Mulher transexual, fotógrafa, produtora e presidente da Associação de Pessoas Portadoras de Deficiência de Passos, essas são apenas algumas das diversas funções de Leandrinha Du Art. A mineira, de 22 anos, é referência de empoderamento, ativismo e resistência LGBT.

Durante uma viagem à São Paulo, onde participou do Ciclo de Debates, ela visitou a sede da Associação da Parada do Orgulho LGBT, e dividiu conosco suas idéias e crenças.

Leandrinha Du Art visita a sede da APOGLBT (26/05)

Confira abaixo nossa entrevista na íntegra:

APOGLBT – Você acredita que ser LGBT e ter alguma deficiência torna tudo mais complicado? Existe preconceito dentro do preconceito?

Leandrinha: Eu acredito que ser LGBT já é complicado… ser portadora de necessidades especiais já é complicado… Os dois juntos é o pacote da desgraça completo. São lutas diferentes, mas não deixa de ser. É mais um enfrentamento para as pessoas porque choca mais.

Existe muito muito preconceito dentro do preconceito. Eu acho que na classe LGBT é muito mais, nem é por conta da deficiência física, mas por conta de alguns pensamentos que você passa a ter, por conta de ser trans e não se importar de se intitular travesti…porque eu sou mulher transexual e a menina da esquina é travesti? Só porque a gente não teve as mesmas oportunidades? Só porque eu tô tendo um destaque maior? Então quando eu me intitulo travesti é para representar essas meninas, que na maioria das vezes não teve a oportunidade que eu tive para chegar onde eu cheguei.

APOGLBT – Como você se descobriu uma mulher transexual?

Leandrinha: É um passo a passo… Primeiro eu me assumi gay, e depois me descobri trans. Como eu me descobri? Eu acho que é não me identificando com o meu próprio corpo, e não ter ponto de referência, nem contato com o mundo LGBT, ficou bem mais difícil para saber o que eu era. Então eu não sabia o que eu era… eu era um menino, que não me identificava com o meu corpo, e mesmo assim ainda tentava entender aquele corpo, pra ver se alguma coisa estava errada.

Demorou… eu me assumi com 17 anos, hoje eu vejo o jovem se assumindo bem cedo e me dá uma alegria imensa, porque eu acho que quanto mais cedo, melhor. O impacto vai ser gerado do mesmo jeito… Eu entendo que a maioria demore pra se assumir pra família com medo de violência, na qual eu não sou apta a falar porque nunca sofri, mas mesmo assim eu falo por essas pessoas também. O tempo necessário pra se assumir é o tempo que você levar para se entender, se tiver que levar 20, 30 anos, leva… mas não fica a vida inteira tentando viver igual as outras pessoas.

APOGLBT – Quando começou a militar? Sentiu alguma dificuldade?

Leandrinha: Eu comecei a militar quando eu nasci, porque eu já nasci uma pessoas portadora de necessidades especiais…então eu tive que sobreviver para me destacar. A menos que eu quisesse ficar dentro de um quarto, isolada…longe de tudo e de todos.

Depois que eu conquisto o meu lugar no sol, é onde eu falo: “vamo comigo?”, e eu acho que é pra isso que eu sirvo. A minha militância é essa… arrastar essas pessoas, essas mulheres que têm a auto-estima baixíssima, os portadores de necessidades especiais que ainda estão dentro de casa, sentindo vergonha do seu corpo, de sua deficiência…os LGBTs que perderam o senso político da gravidade do momento em que nós estamos vivendo. Eu falo: “Vamo acordar?”.

Acho que nunca tive dificuldade pra militar, porque já nasci assim, né? Claro, é muito difícil, mas nunca tive um momento onde eu pensei em parar de fazer as coisas que eu faço… mas justamente por eu ser obrigada desde pequena a lutar pelo que acredito.

APOGLBT – Você se sente representada pelos movimentos sociais LGBT?

Leandrinha: Nessa hora, LGBTs me crucificam e me matam…Mas eu me sinto muito representada por alguns, outros, não. Porque eu acho que se perdeu o fio da meada política, sabe? Se perdeu o motivo de estarmos fazendo isso…porque da parada LGBT? Se perdeu isso. O que é uma pena, porque se você perguntar para as pessoas que vão na parada qual o tema desse ano, a maior parte não vai saber responder. Elas vão mais por uma boate a céu aberto do que pela causa em sí.

Claro que eu apoio a parada, porque a visibilidade é um passo dado… porque se você está na rua, mesmo que não sabendo direito a importância disso, alguém está te vendo.

APOGLBT – Atualmente, qual a maior importância do seu trabalho?

Leandrinha: Conscientizar as pessoas de que elas são capazes, que elas têm que ser empoderadas, e que de alguma forma estão sendo preconceituosas consigo mesmas.

Desconstruir pra construir de novo é o que eu faço, sabe? Quando uma pessoa me olha e vê todo esse todo meu, eu acho que ela para pra pensar e enxerga uma referência… e eu sinto muito orgulho de ser referência… Quando uma pessoa me elogia eu não fico falando: “Ai, magina…”… EU SOU MESMO! Eu trabalhei pra isso, eu sou boa no que eu faço, eu acredito no meu potencial, eu sou referência e meu trabalho é esse… levar as pessoas comigo.

APOGLBT – Hoje você serve de exemplo para muitas pessoas que compartilham das mesmas dificuldades. E você? Teve ou tem alguém como exemplo de superação?

Leandrinha: Eu tenho milhares de referências… tanto comunicadores como pessoas do meio LGBT. Eu sou comunicadora também, então eu acho que é importante se inspirar nos outros, mas sem perder sua própria identidade. Sempre manter sua essência mesmo.

APOGLBT – Que conselho você daria para quem é LGBT, tem alguma deficiência e se sente sozinha(o)?

Leandrinha: Se conheça, se permita dar o seu espaço, mas se conheça em primeiro lugar… o que mais pesou pra mim foi não me conhecer, então acredito que esse seja o primeiro passo pra você construir uma vida legal.

APOGLBT – Se você pudesse criar uma sociedade perfeita, como ela seria?

Leandrinha: Eu não acredito em uma sociedade perfeita… eu acredito em várias idéias, pontos de vista diferentes. Uma sociedade perfeita seria aquela onde todos nós nos respeitássemos e soubéssemos ouvir outras pessoas, mesmo que não compactuando as idéias… siga aquilo que você acredita, mas não impeça os outros de acreditar em suas idéias próprias. Respeito é a solução pra uma sociedade perfeita.

APOGLBT – Como as pessoas podem entrar em contato com você? Tem site, Facebook, Twitter?

Leandrinha: Eu tenho minha página no Facebook “Leandrinha Du Art”, meu Instagram LeandrinhaDu… Lá eu posto vários textos meus, vários eventos que eu participo e escrevo bastante matérias sobre determinados temas.

Eu converso muito com pessoas do Brasil todo, mulheres, portadores de deficiência de vários lugares… faço o possível pra responder todo mundo. É bastante prazeroso, sabe? Alcançar esse público que eu alcanço é um passo, e cada passo precisa ser valorizado.

Foto: Gabriel Nogueira/Catraca Livre

Muitos acreditam que o cristianismo é uma religião impossível para pessoas LGBTs, mas isso não é verdade. Alexya Salvador é prova disso. Ela é pastora na Igreja da Comunidade Metropolitana, mãe de dois filhos, e Trans!

Foto: Gabriel Nogueira/Catraca Livre

Ela é a primeira entrevistada da série de reportagens “Mãe que TRANSformam” , produzida pelo portal “Catraca Livre”. Durante a conversa, Alexya conta como é ser mãe, passando por temas como transexualidade, preconceito, criação dos filhos e dificuldades da maternidade.

A pastora afirma que o desejo de ser mãe surgiu na infância, ao observar a maneira como sua mãe a criava. Segundo Alexya, sua mãe era super rígida, mas que agora percebe que isso foi uma coisa necessária e primordial na composição da pessoa que ela é hoje, e que agora era ela quem era rígida com os filhos. “É igualzinho. Tal mãe, tal filha mesmo!”.

Por ter um filho com necessidades especiais e uma filha trans, ela afirma que suas lutas são várias. Gabriel (filho) precisa de uma atenção maior quando se trata de aprendizagem, já com Ana Clara, o problema ainda é mais intenso, pois ela tenta preparar a filha para uma sociedade transfóbica.

“E ela deve crescer sabendo que o mundo não vai aceitá-la da forma que ela é, mas que ela tem que aceitar o mundo como ele é, pra ela mesma ser feliz.”

Para ela, a maternidade ensinou a se cobrar mais, para que possa ser um exemplo bom para seus filhos. Tornando-a uma pessoa melhor a cada dia.

Quando perguntada a dar um conselhos às outras mães, Alexya disse que as dificuldades virão, mas que a resposta para lidar com elas é, e sempre será o amor.

“Eu digo para todas as mães, e não apenas as de crianças transgêneras ou homossexuais, que o melhor é o amor incondicional. Se houver um amor incondicional, ele é capaz de romper toda e qualquer barreira, esteja esta pessoa onde ela estiver.”

Você pode acompanhar a reportagem na íntegra, na página do Catraca Livre

Direcionada para jornalistas e veículos de comunicação, a 1ª Coletiva de Imprensa da Parada LGBT de São Paulo será realizada na próxima quarta (17) no auditório Franco Montoro da Secretaria de Justiça (Pátio do Colégio, 184) a partir das 10h.

Estarão presentes Claudia Regina (presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), representantes do governo municipal e estadual, secretário de justiça, Skol e Uber (patrocinadores).

Para participar, jornalistas e veículos de imprensa deverão fazer seu cadastro no link abaixo até o dia 15/05:
http://paradasp.org.br/convite2017

Após o cadastro, a confirmação será feita dia 15 e 16/05 por telefone ou e-mail.

Dúvidas e outras informações podem ser sanadas pelo telefone 11 3335-1040 com Fabrício Viana ou Leonan Oliveira.

Vídeo do Mês do Orgulho 2016:

Aproveitando, para o credenciamento de imprensa, veículos deverão se cadastrar em outra lista:
http://paradasp.org.br/credenciamento2017

Como sempre iremos repetir, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, apesar de ser organizada pela ONG APOLGBT SP (www.paradasp.org.br) há 21 anos (aliás, pouca gente sabe que a Parada tem uma ONG que é sua única responsável legal), todo o trabalho é sempre criado de forma democrática em conversas com outras ONGs de direitos LGBTs, coletivos e militantes independentes ao longo do ano (e não somente na época da Parada!). Isso inclui também a criação da Arte da Parada: o cartaz oficial que leva a data, tema e slogan do evento.

No dia 21/11/16 publicamos em nosso portal uma chamada para designers, ilustradores e desenhistas enviarem sugestões para a Arte da Parada 2017. No dia 17/12/16 em reunião com outras ONGs, coletivos e militantes independentes, foi escolhido duas artes e que deveriam ser mesclada. As artes foram enviadas pelo Getúlio Lima (SP) e Pedro Castro (AM) que, logo após aviso, concordaram nesta mesclagem.

O trabalho final (aprovado por todxs) é este cartaz:

Mas, quem seriam estes dois? Getúlio Lima e Pedro Castro?

Justamente por isso resolvemos fazer uma entrevista e conhecer um pouco mais destes dois rapazes.

Vamos lá?

1) Em que estado você mora? Idade, estuda e trabalha com o que?
Getúlio: Sou de São Paulo Capital, tenho 31 anos e trabalho como designer de apps e games, e apresentador da Rádio Geek. Redes sociais: @Getz9 / Snapchat Getz9
Pedro: Eu nasci em Manaus, capital do estado do Amazonas. Tenho 23 anos, sou designer gráfico e tenho uma marca de Moda Praia de Rios chamada Chillique River Wear, um moda voltada inicialmente para a região amazônica, preservando a essência e transformando-as em tendências. Inclusive eu e meu sócio vamos lançar nossa terceira coleção esse ano, com uma pegada voltada para a diversidade de gênero, provavelmente na III Semana de Moda do Amazonas. Minhas redes sociais: @pedrocastros / FB: Pedro Castro

2) Como ficou sabendo sobre a Arte da Parada 2017? E o que te motivou a participar?
Getúlio: Estava eu, em uma semana super atarefada, final de ano, quando vi o post do Fabricio Viana no grupo Design Gráfico. Fiquei super curioso sobre o assunto e na mesma madrugada comecei a rascunhar o cartaz. Então depois de dois dias testando tipografias, cores, peso de fontes cheguei na solução. O que mais me motivou foi poder ajudar a comunidade e perceber que independente de qualquer partido, a religião deve ser neutra e não ser usada para tomar providencias políticas.
Pedro: Eu e uns amigos fomos para a 21ª Parada Gay do Rio de Janeiro no ano passado, e ficamos encantados com a grandiosidade da manifestação, uma coisa é você assistir pela TV outra coisa é você presenciar. Quando retornei à Manaus, fiquei muito interessado sobre a Parada Gay de São Paulo, então fui pesquisar e foi daí que encontrei sobre o concurso no site e decidi participar. A minha decisão em participar foi de mostrar para as pessoas do meu convívio e da minha região que luto por uma classe muito injustiçada e que somos rodeados de preconceito e desrespeitados por todos os lados, inclusive com outros LGBT. Penso eu não vou mudar mundo, mas posso fazer um mundo melhor, um futuro melhor com menos ódio.

3) O que você achou do tema de 2017? “Independente de nossas crenças, nenhuma religião é lei! Todas e todos por um Estado Laico”?
Getúlio: Eu acredito que o estado não pode privilegiar nenhuma religião com isenção de impostos e outras legarias. O ensino religioso também deveria estar fora da sala de aula. É por essas e outras que a educação gera pessoas incapazes de respeitar a sexualidade e o comportamento de outros.
Pedro: Um tema extremamente essencial para ser discutido. O Brasil é o país das manifestações culturais com origens em diversos outras regiões. O nosso país é o encontro de todas elas. Sim, é um Estado Laico, ninguém precisa impor uma religião a ninguém, a religião que toca o seu coração. Costumes existem, tradições também, todavia não é uma regra que se nasci numa família protestante ou espírita, por exemplo, que eu preciso necessariamente seguir a ideologia. A partir de um certo momento na vida somos capazes de escolher qual concepção seguir, e isso não pode ser de nenhum forma forçada, precisa ser espontaneamente.

4) Você já tinha conhecimento dos outros temas da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo? Se sim, qual o mais significativo pra você?
Getúlio: O tema que mais falou comigo foi o da 19 edição: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim. Respeite-me!” Para mim, esse tema é como a voz de todos que não conseguem se expressar devido a sociedade controladora e preconceituosa que vivemos. Ninguém vira gay ou trans, nascemos assim e gostaríamos de ser respeitados.
Pedro: Eu sempre tinha conhecimento apenas pela internet e/ou televisão. E um tema que me chamou bastante atenção foi a do ano de 2013, que falava sobre “voltar para o armário, nunca mais”, porque o quanto sofremos por conta disso, é como se precisássemos nos assumir, como se estivéssemos cometidos um crime. É um tema que mexe muito com o coração e cabeça de vários LGBTs.

5) Você já participou da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo? Hoje considerado o maior evento de visibilidade LGBT do mundo?
Getúlio: Quase todos os anos eu participo, vou com amigos e família. A abertura é emocionante. Fora os carros de som, drags e todos personagens e artistas que podemos encontrar. Teve um ano que fui de marinheiro sex, heheh. Foi muito divertido.
Pedro: Não, infelizmente ainda não. Essa será minha primeira e será uma estreia cheia de responsabilidade. Eu não estou apenas ansioso para que chegue logo junho, tenho consciência da grande dimensão que o evento possui, e justamente por isso que fico mais nervoso e apreensivo, porém são sentimento de plena felicidade. É a maior janela LGBT para o mundo.

6) Neste ano, tivemos dois contemplados para a Arte da Parda, como foi receber esta notícia e ter que trabalhar em conjunto?
Getúlio:
O resultado saiu no aniversário da minha mãe, foi um presente para ela! Fiquei ainda mais feliz quando descobri que ganhei junto com outro designer, e que iríamos trabalhar em um só projeto, e de quebra ganhei um amigo de Manaus <3
Pedro: Foi maravilhoso, a comunicação é a área que eu escolhi como profissional, logo um bom diálogo é imprescindível seja qual for a situação. Eu e o Getúlio entramos em contato logo depois de sabermos o resultado, e conseguimos mesclar as nossas artes super tranquilo. Ele é um cara muito talentoso, divertido e inteligente.

7) Na sua opinião, o que falta ainda na sociedade para combater o preconceito e a homofobia?
Getúlio:
A educação nas escolas ainda é muito machista, e muito concentrada no poder de quem dirige. Já vi reportagens que diretores não aceitavam meninos trans usarem banheiro feminino. A educação é a base de tudo, constrói pessoas melhores para a sociedade. Já trabalhei em empresas que um funcionário não foi contratado porque acharam que ele sofreria Bullying por ser afeminado. Sendo que quem não contratou, não fez nada para ir contra o preconceito. Fiquei tão indignado que logo saí dessa empresa, cheguei a alertar o RH, mas não adiantou.
Pedro: A sociedade precisa entender que se todos nós fôssemos iguais o mundo seria uma “deprê” total, Deus nos fez diferentes para mostrar e fazer a diferença no mundo. Mas infelizmente muita gente não sabe lidar com as diferenças, o mundo está em constante evolução. Conseguimos várias conquistas de lá até aqui, mas precisamos continuar lutando. Penso eu que o preconceito nunca vai acabar, ele mudará de garras, máscaras e armaduras. Cabe a nós mostrar que sabemos muito bem viver com as diferenças e harmonia através do amor.

8) Obrigado pela entrevista! Podemos contar com sua presença na 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo?
Pedro: Com certeza! Apesar de morar um pouco longe de vocês, já comecei a me programar para estar presente com vocês em junho. Espero conhecer todos e ver o quanto uma produção minha e do Getúlio será propagada na Parada Gay esse ano. Pretendo causar muito com todos e todas vocês.
Getúlio: Pode contar, pois eu estarei lá lutando com todos para um Brasil melhor, com menos preconceito e mais amor!

Lembrando que a 21ª Parada do Orgulho LGBT já tem data marcada. Será realizada no dia 18/06/2017. Aproveite e confirme sua presença (e convide xs amigxs) no link oficial do evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/105978123240834/

Por Tâmara Smith

Conheça a Karina Dias, autora do livro SEM DESTINO: depois que ela partiu…
e outros títulos “de meninas para meninas”

Neste final de semana aconteceu o segundo lançamento do livro “SEM DESTINO: depois que ela partiu…”, da escritora Karina Dias no Museu da Diversidade de Sexual em São Paulo. Evento tão esperado pelos leitores e fãs da literatura LGBT, Karina concedeu uma entrevista exclusiva para nosso site. Confira:

1 – Obrigado pela entrevista. Embora acreditemos que para ser uma boa escritora não precisa necessariamente de uma boa formação, queremos saber: qual é a sua formação acadêmica? Fez especialização? Algum curso específico para a escrita?

Karina: Eu quem agradeço. 🙂 Eu sou jornalista, formada na Universidade São Judas Tadeu, São Paulo. Fiz Mestrado em Jornalismo Contemporâneo na Faculdade Cásper Líbero, São Paulo. Pesquisadora, membro do grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo. Roteirista, produtora e editora.

O jornalismo ajudou muito na questão do aperfeiçoamento da escrita, sobretudo no que se refere a uma das práticas mais importantes (em minha opinião) para o escritor, que é a pesquisa. Através da pesquisa, nos tornamos ótimos ouvintes e observadores, além de permitir maior avanço da realidade espelhada da literatura. Para mim, literatura, acima de tudo, reflete o contexto social em que estamos inseridos.

2 – Quantos livros você já escreveu, qual seu público alvo e quais os títulos foram traduzidos para os outros idiomas?

Eu escrevi 4 livros: “Aquele dia junto ao mar”, “Diário de uma garota atrevida”, “As Rosas e a Revolução” e “SEM DESTINO: depois que ela partiu…”. Este último é uma realização do Governo do Estado de São Paulo e Secretaria da Cultura do Estado, através do Proac 26/2015.

Participei também de 3 coletâneas: “Orgias Literárias da Tribo”,  “Rio de Cores” e “Voces Para Lilith”  (somente neste último a publicação foi em espanhol, por ser a primeira antologia de literatura lésbica da América Latina). Ainda não tive a oportunidade dos meus livros serem traduzidos para outros idiomas.

Meu público alvo são as mulheres lésbicas e bissexuais.

3 – Você ganhou o Prêmio Papo Mix em 2014 e o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade em 2015, ambos na categoria literatura LGBT; por quê o reconhecimento aos escritores LGBTs é importante neste segmento?

Os prêmios são muito importantes porque dão visibilidade, não somente ao nosso trabalho, mas a nossa bandeira contra o preconceito. É uma forma de dizer que nós existimos e fazemos cultura LGBT. Existe um público que respeita o nosso trabalho e as nossas histórias são ferramentas de militância, pois mostram o mundo real, em que os homossexuais vivem como qualquer outro cidadão, embora não tenhamos os mesmos direitos (ainda, infelizmente). No Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade 2015, por exemplo,  ganhamos todos, lésbicas, gays, trans, travestis… pois foi a premiação de uma coletânea linda, o “Orgias Literárias da Tribo”, que trouxe uma gama de experiências e sensações. Muito bom ter o privilégio de compartilhar. Sozinhos nós não somos absolutamente nada.

4 – No livro As Rosas e a Revolução, você traz a realidade das personagens Vilma e Alda que juntas, durante a ditadura militar, resistem a repressão mesmo após 48 anos. Esse sombrio momento na política ainda está presente na sociedade? Como você vê isso?

O período ditatorial é importantíssimo para nós, brasileiros. Infelizmente, correntes conservadoras, até fascistas, insistem em minimizar a história ou fomentam nas mentes e corações de parte da sociedade a opinião de que a ditadura foi ou é  bom para o país (um absurdo! Basta estudar o tema para achar um grande absurdo). Nenhum sistema opressor, seja de direita, seja de esquerda é saudável. A democracia, por mais difícil que seja, ainda é a melhor opção.

Neste momento político atual (2016), penso que existe uma onda de insatisfação e desencanto com a política. Mas há também a força daqueles que resistem e dizem NÃO ou retrocesso. Talvez possamos dizer que o estopim para o momento político atual foram as manifestações de junho de 2013. Daí em diante, percebe-se claramente a apropriação das manifestações por grupos oportunistas que atacam diretamente a democracia. Não vivemos hoje uma ditadura militar, mas sim, uma possibilidade real de que os avanços democráticos sejam duramente reprimidos pelo conservadorismo presente em nosso Congresso. Nos acostumamos com a fragilidade dos discursos, dos debates, e beiramos ao esquecimento histórico, que pode ser fatal para a nossa democracia tímida e jovem. Por tudo isso, tenho muito orgulho de ter lançado o livro As Rosas e a Revolução que resgata a memória (mesmo de forma fictícia) de um período que todos nós, brasileiros, deveríamos temer de recriar em nossa política.

5 – Você é uma escritora que alcança lésbicas e meninas bissexuais, a empatia da leitora pela personagem, ajuda na compreensão dos desafios de ser LGBT na sociedade atualmente? Meninos também leem seus escritos?

Quando penso em uma história, procuro abordar assuntos atuais e trazer para as minhas personagens a simplicidade do cotidiano. Criar a empatia entre personagem e leitor é muito importante para construir um elo afetivo. Através desse elo, percebi que as narrativas ajudam em uma das questões principais dos LGBTs, que é a aceitação. Aceitar-se e ser feliz exatamente como somos, independente da sexualidade. Minhas personagens são gente comum, que sofrem, choram, sentem… Não tem poderes especiais, mas resolvem as dificuldades impostas pela vida (as quais todos estamos sujeitos), sem se submeter ao modelo heteronormativo hipócrita que rege a sociedade machista em que vivemos. Recebo muitas mensagens de pessoas que não são homossexuais. Homens e mulheres, gays, trans… que leem as minhas histórias e gostam do enredo. Isso é gratificante, pois nos une e a união, a compreensão, a tolerância, são as melhores ferramentas de resistência. Da mesma maneira que eu me encanto com romances héteros, gays, é maravilhoso saber que as pessoas também gostam das minhas narrativas. A sexualidade das personagens é o que menos importa (quando essa ideia estiver presente na sociedade, seremos um povo mais justo e menos preconceituoso), o bom mesmo é se emocionar e viajar sempre em um mundo novo, capaz de acalentar os nossos corações.

6 – Como foi o processo de busca por editora? Você publica seus livros da forma independente? Existem editoras que publicam livros com temática LGBT?

Sempre publiquei com editora, exceto “As Rosas e a Revolução” que eu me enveredei pelos caminhos da publicação independente. Foi uma experiência maravilhosa que eu quero repetir. Contudo, buscar uma editora, apesar de ser mais difícil, é um caminho muito melhor para se percorrer. Existem editoras especializadas na temática LGBT, a Metanoia, que publicou o meu último livro é uma delas. Tem também a Editora Orgástica, a Vira Letra e a PEL.

7 – A Literatura LGBT hoje é pouco difundida, inclusive por veículos LGBTs. Poderia citar outros autores, homens, mulheres ou trans, que possuem livros e que merecem serem lidos?

Pois é. Realmente, ainda falta muita visibilidade. No entanto, cada vez mais percebo que as pessoas estão produzindo, seja no impresso, seja em canais virtuais, como blogs e sites. Eu mesma vim da internet, como outras autoras. A Editora Malagueta, que hoje, infelizmente não publica mais, lançou os meus dois primeiros livros, um deles já tinha feito barulho na internet, que é o “Aquele dia junto ao mar” (esgotado) e o da “Drika Silva”, que também foi do virtual para o impresso, publicou também uma das autoras que eu mais admiro no meio LGBT que é a Lúcia Facco. Tem muita gente bacana produzindo literatura, vou citar alguns nomes, mas com certeza tem muito mais. Fabrício Viana (recordista em boas histórias) e Kadu Lago. A editora Metanoia vem numa pegada incrível ao publicar tanto homens quanto mulheres, tem o Roberto Muniz Dias, a Priscila Cruz, Lis Selwyn, Janaína Garcia, em breve Marisa Medeiros. A PEL traz Mariana Cortes, Sara Lecter e Duda Drey (que fez a capa do meu livro “SEM DESTINO: depois que ela partiu…”); tem a Vira Letra com Diedra Roiz e Wind Rose. É muita gente boa produzindo, com certeza eu não coloquei o nome de muitas outras pessoas que fazem a literatura LGBT percorrer um caminho de sucesso.

9 – Seus livros são vendidos onde? Tem um site seu? Como é feito a compra?

Meus livros são vendidos em meu site www.karinadias.com.br (através de cartão de crédito, débito e boleto bancário), no site da Editora Metanoia, da Editora Brejeira Malagueta, da Editora Orgástica, Livrarias Blooks e Cultura (sob encomenda). Em breve terei novas parcerias.

10  – Obrigado pela entrevista. Para finalizar, poderia deixar seu site ou contatos? Das suas redes sociais?

Agradeço imensamente a oportunidade de conversar com vocês que desenvolvem um trabalho super sério para o mundo LGBT.

Meus contatos:

Site: www.karinadias.com.br
Facebook: facebook.com/karina.dias
Instagram: @kadiasescritora

 

Por Fabrício Viana

Drag Queen Tchaka, a “Rainha das Festas”, como ela mesma se vende (e muito bem, obrigado!), é uma mistura gostosa de arte com militância. Arte porque, para ser uma drag queen, tem que ter seus talentos artísticos (aprendidos ou inatos) e militante porque, ao contrário de outros artistas, é participante ativa da militância LGBT há anos. Conseguimos uma entrevista exclusiva com essa menina.

Vamos ler, comentar e compartilhar?

1) Qual seu nome e sua formação? Pode falar?
Meu nome é Valder Bastos Santos, sou formado em direito pela Universidade Brás Cubas e tenho o curso profissionalizante de ator na Escola de Teatro Macunaíma.

2) Quando a personagem Drag Queen Tchaka surgiu em sua vida? Há quanto tempo você trabalha com ela?
Em meados dos anos 2000 um grupo de amigos resolveu que no revellion desse mesmo ano alguém se ‘montaria’ de Drag Queen e eu fui o escolhido por ser ‘a mais pintosa’, espalhafatosa e engraçada. Então em 2016, faço 16 anos de carreira na arte de encantar através do lúdico e estou na marca de mais de 4 mil eventos, shows, palestras, feiras, congressos, participações em programa de TV, teatro e cinema por todo Brasil.

3) Porque o slongan “Tchaka, a rainha das festas”?
O título de “TchaKa, a rainha das festas” surgiu de um convite do jornalista Maurício Coutinho que, no ano de 2010, fez uma exposição “InformaSamba 2010” no Shopping Ligth e me coroou como a rainha das festas da cidade de São Paulo. Teve faixa e tudo. Adorei a brincadeira e comecei a usar positivamente ao meu favor.

4) Além de toda a alegria, simpatia e irreverência, a Tchaka é uma boa “marqueteira”. Você fez algum curso ou aprendeu tudo com a vida?
Adoro a arte de vender, fiz diversos cursos no Sebrae sobre empreendedorismo, mesmo na época da faculdade eu já vendia cestas de café da manhã para ajudar a pagar a mensalidade. Hoje faço workshop e apresentação de novas drag queens, como por exemplo, o projeto “Drag Contest” que é patrocinado pela Prefeitura de São Paulo. Acredito que todos profissionais, independente de sua área, deveriam fazer um curso de como vender suas habilidades profissionais. Digo sempre o seguinte: quanto deveria ganhar um advogado com 16 anos de carreira? É exatamente ou até mais o que devo ganhar na profissão de ator performático, temos que aprender que ser ator além de ‘vocação’ (que é questionável) também e fazer um planejamento estratégico de carreira.

5) Quais os trabalhos que a Tchaka realiza no dia a dia? Festas infantis? Eventos corporativos?
Hoje a Tchaka é multimídia: realizo diversos atividades, sou uma drag queen do dia (risos). Durante o dia fico no escritório da “Agência de Animação Tchaka Eventos”, somos 16 atores e atrizes como anões, DJs, recepcionistas, bartenders e drag queens: todas no estilo Tchaka de ser. Gravo o programa Okay Pessoal no SBT, estou em cartaz no teatro, também ministro “Palestra Motivacional Lúdica” para grandes empresas e faço as tradicionais festas sociais, como por exemplo aniversário surpresa, chá de cozinha, chá de bebê, chá de casa nova, chá-bar, festas de formatura, festa de casamento, bodas, festa de debutantes, etc

6) Diferente de alguns artistas, você se preocupa muito com a militância LGBT. Da onde vem este sentimento de querer fazer algo por um mundo melhor?
O sentimento que me motiva vem de minha mãe, que é uma mulher de 82 anos e que sempre lutou por dias melhores, envolvida com política na adolescência, lá na época da ditadura, ela lutava pelos direito da mulheres, etc. A faculdade de direito me deu base para falar corretamente, ser bom na oratória e entender o que sou e devo fazer nesse mundo. O envolvimento com as questões dos direitos dos LGBTTs vem dessa época, e do enfrentamento direto. Uso minha imagem, arte, força e voz para tentar por meio do lúdico despertar outras cabeças pensantes.

7) A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, o maior evento de visibilidade LGBT do mundo, é promovido pela APOGLBT há 20 anos. Você tem acompanhado esta evolução? Se sim, o que mudou na sociedade graças a Parada?
O trabalho desses 20 anos da APOGLBT é essencial para que hoje possamos ser o que somos, com a visibilidade e sensibilização da população. O respeito para os LGBTTs que até então é renegada, começou a ser vista, sentida e vivenciada de forma mais tranquila. A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo beneficia à todos os lgbtts do Brasil por ser politizada. Precisamos continuar na luta para que chegue um domingo, na Avenida Paulista, e realmente tenha só a festa de todas as vitórias que conquistamos anteriormente. Enquanto isso não acontece, precisamos ter consciência que #FervoTambemÉLuta

8) Há 3 anos, você apresenta, junto com outros artistas, a Parada do Orgulho LGBT na Avenida Paulista. Como é esta experiência?
Drag Queen Tchaka ser a apresentadora da parada LGBTT de São Paulo é um mix de dever social e responsabilidade em se comunicar com 3 milhões de cabeças pensantes, é me fazer ser a voz daqueles que o ano inteiro não tem.

9) Tem algum fato que te marcou, durante alguma Parada do Orgulho LGBT de São Paulo?
Vários momentos me marcaram durante esses anos. Sempre venho no chão (exceto esses 3 últimos anos que apresentei no primeiro trio) e um determinado ano, vendo os trios passarem, ouvi de longe o Hino Nacional Brasileiro cantado brilhantemente pela travesti e cantora Renata Peron. Foi muito emocionante. E esse ano, em especial, ver à frente do primeiro carro o grupo “Mães Pela Diversidade”.

10) Sabemos que famílias e crianças também participam da Parada. Como elas encaram a personagem Tchaka. Ou outros artistas?
A cada ano o número de famílias com crianças vem aumentando e isso é deliciosamente positivo para o movimento. Devemos grande parte desse processo às drag queens que nesses 20 anos transformaram à Avenida Paulista e a Avenida da Consolação num tapete arco-íris, com todas as suas cores, alegria, militância, excentricidade e exuberância. A figura da drag Queen no universo heteronormativo é visto como deve ser: de artistas. E dessa forma ajudam comunicando as mensagens políticas, durante à manifestação, para todas as pessoas.

11) Tchaka também pode ser vista no teatro? Tem alguma peça em cartaz neste momento?
Esse ano me permiti brincar, brilhar e entreter almas também nos palcos do Teatro Brigadeiro aos domingos com a comédia “As Vizinhas”. Compartilho o palco com os atores Carri Costa, Solange Teixeira, Thiago Cavalcante e Valder Bastos.

12) Para finalizar, o que você diria para todas as pessoas LGBTs que estão lendo, neste momento, esta entrevista?
Muitas pessoas, por ver a Tchaka correndo, trabalhando, realizada no casamento de 16 anos com maridão Chefe Carlito, feliz da vida, etc me veem como exemplo positivo. Sempre falo o seguinte: ter estudado me deu liberdade de fazer as escolhas certas, então LGBTTs de nosso gigante país, vamos estudar, ler muito e assim termos a consciência que temos que fazer nossa parte nessa transformação, afinal, o mundo que queremos só será possível se todos e todas formos respeitados e respeitadas pelo que somos.

13) Pode deixar seu site e contatos? Muito obrigado pela entrevista!
O site é www.tchaka.com.br. WhatsApp 11 991327750 e o instagram @TchaKaDragQueen

Por Fabrício Viana.

irangiusti
Iran Giusti. Foto: Arquivo Pessoal

Muita gente critica a Parada do Orgulho LGBT, independente do lugar e da ONG que a administra. A principal reclamação? Que falta política. Falta protesto. Que tudo virou um grande “carnaval” a céu aberto. Claro que em um evento social deste porte, alegria e militância tem que caminhar juntos sempre. E que até a alegria gerada pelas pessoas que se fantasiam e vão apenas para se divertir, sem medo de serem o que são, também é um ato político. Agora, se falta mais política, mais atos políticos, não adianta só criticar. Como diz o artigo (um dos mais lidos em nosso portal) “Antes de criticar a Parada, leia este texto”, a responsabilidade de uma manifestação mais politizada tem que ser de tod@s. Não só dos organizadores. E é justamente isso que Iran Giusti fez, no dia 29 de Maio, na Avenida Paulista, durante a 20ª Parada do Orgulho LGBT.

E o que o jovem Iran fez? Ele comprou cartolina, escreveu frases de protesto e militância e começou a distribuir gratuitamente para todas as pessoas que se interessavam não só em participar da Parada, mas também fazer a diferença. Lindo isso, não? Tanto que fizemos questão de entrevistá-lo em nosso portal e pedimos que todos compartilhem, o máximo que puderem, esta entrevista. Que a atitude dele sirva de exemplo para tod@s. Sempre!

iranGiusti-parada-lgbt-militancia
Iran Giusti criando e distribuindo gratuitamente cartazes de militância durante a 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo

Vamos à entrevista?

1) Qual seu nome e formação?
Iran: Iran Giusti, sou formado em Relações Públicas e jornalista de profissão.

2) Na 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, você estava distribuindo gratuitamente cartazes de militância LGBT, de quem foi esta ideia?
Iran:
Minha mesmo 🙂

3) Você teve apoio ou financiamento, para produzir estes cartazes, de alguma empresa ou ONG?
Iran: Não tive não, foi tudo do meu bolso mesmo.

4) Amigos ou parentes te ajudaram nesta empreitada?
Iran: No dia alguns amigos foram à Parada e ajudaram na distribuição. Foi bem lindo.

5) Entre as frases dos cartazes, poderia citar algumas pra gente?
Iran: Eu optei por misturar bastante, inserindo frases divertidas com mais políticas: “Vote LGBT“, “Nome Social é Direito“, “Aprovação Lei João Nery já“, “Aprovação Lei 7852 já” e “Meu cu é laico“, “Vamos ser viado pra sempre” (frase do personagem “bicha bichérrima” do Paulo Gustavo), “Cada dia mais bicha, um level a mais, igual um pokemom” (Do documentário Bichas), “Hétero só serve pra fazer mais bicha” (meme popular na internet). Entre outros.

6) Quantos cartazes você produziu e foram distribuídos durante a Parada neste ano? Tem ideia aproximada?
Iran: Foram aproximadamente 120 cartazes. 80 produzidos por mim e o restante por quem passava e escolhia fazer o seu.

entrevista-irangiusti

7) Além de você, teve outras pessoas com a mesma atitude? Ou com algum trabalho de militância deste tipo?
Iran:  Acho que com esse propósito não teve ninguém não, mas como fiquei em um único ponto da Paulista não consigo te precisar.

8) Há quanto tempo você participa da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo? Percebeu alguma mudança na sociedade ao longo dos anos, graças a visibilidade da Parada?
Iran:  Essa foi a minha décima edição. Eu sinto que a Parada está cada vez mais organizada, porém, o evento é na verdade formado de pessoas e são elas que devem fazer o que acham certo. Sinto que ela tem sido mais política e isso é muito importante, em especial em um país onde a política é tão contrária aos direitos LGBT.

9) Muitos criticam a Parada como um enorme carnaval. Dizem que precisa de mais militância e empoderamento, mas não fazem nada para mudar isso. Você fez. Acha que as pessoas deveriam reclamar menos e também colocar a mão na massa? Concorda que a militância tem que ser de todos e não só da ONG APOGLBT, responsável pela Parada do Orgulho LGBT de São Paulo?
Iran:  Eu amo o fato da Parada ser um enorme carnaval, isso é Brasil. A gente tem como característica essa alegria, esse animo, esse amor e é muito importante a gente lembrar que se divertir, beber, beijar na boca é sim um ato político e de resistência, principalmente em uma sociedade homofóbica quanto a nossa. Vale lembrar também que uma coisa não exclue a outra.

10) Para os próximos anos, você pretende fazer a mesma coisa? Tem outras ideias ou projetos para a Parada?
Iran:  Ano que vem vão ser 500 cartazes e por enquanto é só isso, porém, participo de vários projetos e faço matérias de temática LGBT, então, quem sabe não surge uma nova ideia?

11) Para finalizar, gostaria de deixar um recado para todos os leitores e amigos do nosso portal?
Iran:  Queria repetir uma coisa que faço constantemente: se um dia eu for agredido, espancado ou morto por homofobia eu não quero absolutamente ninguém usando camiseta com a minha cara se manifestando ou rezando. Pra mim, a luta é agora, enquanto eu tô vivo.

Iran, obrigado pela entrevista e, novamente, parabéns por sua criatividade, militância e atitude. Que ela realmente sirva de exemplo para muitas pessoas!

Entrevista com Willian S. Martins, um dos organizadores do GT de Juventude LGBT

1) Willian, o que é o GT da Juventude LGBT?
Willian:
O GT (Grupo de Trabalho) da juventude é um núcleo organizado por jovens e afins, em cooperação com a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT SP), que visa promover o incentivo de jovens para a militância política e ideológica do segmento LGBT.

WILLIAM-S-MARTINS-LGBT-JOVENS
Willian S. Martins

2) Quando que o GT da Juventude foi criado?
Willian:
GT da Juventude LGBT foi criado no meio do ano de 2015. Entretanto, podemos considerar que o GT da Juventude foi reativado, tendo em vista que a Secretaria de Jovens da Associação deu início em 2001, onde, desde essa época, alguns jovens veem colaborando e abraçando a causa da APOGLBT-SP.

3) Qual seu principal objetivo?
Willian:
Promover ações e incentivar o interesse de jovens na militância LGBT, empoderando e trazendo-os para a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Jovens possuem energia, garra e muita força de vontade. E não só podem como devem fazer a diferença.

4) O GT da Juventude é um grupo fechado? Válido apenas para os associados da APOGLBT?
Willian: Não. O GT existe graças a pró atividade dos jovens na militância LGBT em São Paulo, não faz sentido ser um grupo fechado. Mesmo porque nós buscamos novas opiniões e ideias. Quem tiver interesse de fazer parte, é só entrar em contato com a gente. Estamos sempre de portas abertas.

5) Como um grupo de jovens, há ordens estabelecidas pela diretoria da APOGLBT?
Willian: O importante é o respeito pelas diretrizes pré estabelecidas para o GT da Juventude não perder o foco e planejar as ações sempre com autonomia e respeito entre seus colegas. A direção da APOLGBT acompanha todas as ações, como a recente “marque-se contra a transfobia”, que resultou, inclusive, no início da campanha #ChegaDeTransfobia. Campanha esta que veio de encontro com o tema da Parada do Orgulho LGBT de 2016 “Lei de Identidade de Gênero, Já! Todas as pessoas juntas contra a transfobia”. Somos um grupo de jovens, apoiados pela APOGLBT e por isso também carregamos responsabilidades.

6) Jovens de outras ONGs, coletivos ou independentes, interessados no GT, também podem participar?
Willian: A união dos jovens na militância LGBT é importante, independente se já atuam em coletivos e outras ONGs. Até militantes independentes, todos ganham e somam vozes com a gente. Juntos, somos sempre mais fortes! Todos são bem vindos.

7) Tem algum exemplo? De como conquistam mais jovens para as ações do GT?
Willian: Sim, temos muitos exemplos! O mais recente, como dito anteriormente, foi o vídeo que tem mais de 34 mil visualizações em nossa fanpage sobre as ações transfóbicas que deixam marcas para sempre, já que o Brasil é o país que mais mata travestis, mulheres transexuais e homens trans no mundo! Quatro vezes mais que o México. Um teste foi realizado com um resultado surpreendente no dia 14 de fevereiro, no Bloco da Diversidade em São Paulo, onde 10 mil participantes aderiram a ação e a uma festa temática no mês passado. Todos os convidados se marcaram com as cores azul, branco e rosa. Tiraram fotos, compartilharam nas redes sociais e foi um sucesso! Fruto da campanha que entrou no ar, o que usa a hashtag #ChegaDeTransfobia. Estamos muito orgulhosos de termos começado este movimento. Sabemos da nossa importância.

8) Então é verdade? As redes sociais ajudaram neste trabalho de jovens na militância LGBT?
Willian: Muito, porque recebemos respostas e publicações das pessoas que também se marcaram com as cores da militância T. E não somente no dia 29 de Maio. Todos os dias ainda temos estas publicações. Essas manifestações estiveram ainda no Ciclo de Debates, Feira Cultural LGBT e Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade. Além da própria Parada do Orgulho LGBT.  O empoderamento dos jovens, que em sua maioria moram em periferias invisíveis aos olhos da gestão pública na luta contra o preconceito é muito importante:  basta dar espaço, voz e reconhecimento ao esforço de cada um.

9) Para fazer parte, entrar em contato? Qual o e-mail?
Willian: Pode escrever para o meu e-mail que eu respondo, passo informações e também faço a ponte com o GT Juventude LGBT. Meu e-mail, da APOGLBT, onde também sou um dos diretores, é willianmartins@paradasp.org.br

10) O grupo é assistido por adultos? Outros profissionais?
Willian: Sim, por se tratar de um grupo de jovens, tem o apoio do presidente da APOGLBT e também advogado Fernando Quaresma. Nosso sócio-diretor, Nelson Matias Pereira, recentemente publicou uma nota sobre o GT da Juventude, nele, diz:

“Para a APOGLBT a juventude é de fundamental importância para qualquer país, para qualquer organização. Ainda que  a juventude não tenha grandes experiências, mas a juventude é o grupo que renova que questiona; é a juventude que capta as mudanças com mais facilidade. Estas mudanças que estão acontecendo na cultura, sociedade, na política. Sem esquecer que para concretizarmos essa mudança, cabe ao próprio jovem reivindicar e assumir seu papel na participação de movimentos sociais e políticos. Afinal, eles representam quase 20% dos eleitores e qualquer mudança na história, na política e no desenvolvimento econômico deste país passa pela participação ativa da Juventude. Qualquer país que não invista na juventude, não tem futuro. A ideia de trazer os jovens é primeiro dar empoderamento a essa juventude, e compor  a experiência dos mais experientes com o vigor e ousadia e força da juventude.”

11) Obrigado pela breve entrevista. Para finalizar, é possível mostrarmos algumas fotos do grupo? Do último evento, por exemplo?
Willian: Sim, claro. Temos muitas. As fotos foram tiradas pelo Rodrigo Ferreira na Avenida Paulista, durante a ação “Marque-se #ChegaDeTransfobia”, no último dia 29 de Maio.