sexta-feira, julho 21, 2017
Segmento B
Segmento B - Bissexuais

O processo de descobrir-se homossexual, a pressão psicológica exercida pela Igreja, o medo do inferno, o primeiro beijo, o impulso amoroso, a primeira transa e o apoio encontrado em uma ONG são alguns dos pontos marcantes da obra, cujo título “Guardei no Armário”, faz referência à expressão ‘sair do armário’, que caracteriza o assumir-se homossexual. Lançado pela editora Pragmatha, o livro marca a estreia de Samuel de Paula Gomes no universo literário.

Samuel-de-Paula-Gomes-livro-Guardei-no-Armário“Conto nesse livro a ferida que a igreja evangélica abre nos corações dos LGBTs que crescem nelas e os traumas que carregamos em silêncio”, afirma. Segundo Samuel, a inspiração para transformar em livro sua experiência, compartilhada anteriormente em um blog, de mesmo nome, surgiu da observação do quanto falta um referencial inspirador para quem passa por essas mesmas dificuldades. “Ainda existem poucos títulos nacionais feitos para o público LGBT, gerados por LGBTs, e é quase impossível achar algum com um protagonista negro”.

O livro integra o projeto Guardei no Armário, que também conta com um canal no Youtube onde outros públicos considerados minoria compartilham suas experiências de vida. “Conheci muitas pessoas que poderiam escrever livros sobre suas vidas, suas dores e conquistas. Muitos LGBTs com sofrimentos muito maiores que os meus, que passaram por situações completamente diferentes das que vivi. Essas pessoas precisam ser ouvidas, porque acredito que em algum lugar terá alguém que se identificará com a história ou aprenderá com ela”. No canal, explica Samuel, o protagonista não é o Youtuber X ou Y, mas sim a pessoa que está na frente da câmera, seja ela obesa, magra, branca, negra, amarela ou vermelha, lésbica, gay, bi, travesti ou transexual.

O livro será lançado no dia 23 de maio, em São Paulo, integrando a programação da Parada Gay e conta a trajetória do escritor enquanto homossexual, negro e cristão, criado na periferia da maior cidade da América Latina.

Sobre o autor

Samuel de Paula Gomes

Nascido em São Paulo, Samuel de Paula Gomes, 28, é ativista das causas LGBTs e designer gráfico. Formou-se com recursos do programa de inclusão social ProUni. Hoje, trabalha como Motion Designer, passando por grandes produtoras do mercado áudio visual.

Serviço:

Lançamento do livro Guardei no Armário
Autor: Samuel de Paula Gomes
23 de maio de 2016, a partir das 18h
Local: Tubaina Bar
Endereço: Rua Haddock Lobo, 74 – Cerqueira César, São Paulo – SP
Valor Livro: R$ 35,00
Site: http://www.guardeinoarmario.com
Facebook: https://www.facebook.com/GuardeiNoArmario
Youtube: https://www.youtube.com/c/guardeinoarmariooficial

Quando criei alguns projetos na Internet para levar informações sérias e respeitosas sobre a homossexualidade, comecei a receber um número significativo de e-mails de pessoas, pais, professores, psicólogos, amigos, entre outros profissionais, a respeito das questões que envolvem o tal “homossexualismo” (termo, inclusive, em desuso nos dias atuais por ter conotação de doença).

Como eu nunca consegui responder a tantos e-mails, resolvi pesquisar sobre a homossexualidade e escrever um livro sobre ela. Para meu espanto, em 2006, eu descobri que o “problema” da homossexualidade é algo muito maior do que imaginamos. Não é apenas um problema da homossexualidade, mas sim da sexualidade humana em geral. Sim. Temos um sério problema de educação sexual não só no Brasil mas em diversos países do mundo. Não sabemos nada sobre sexo. A família, em muitos casos, joga a responsabilidade para a escola e a escola, com menos condições, joga a responsabilidade para a família. E daí? A família, sem saber nada sobre ela, acaba passando tudo o que ela sabe aos demais: exatamente nada.

Então, se temos um problema de educação sexual e muitos assuntos sobre a sexualidade humana são obscuros, imagina então sobre a homossexualidade? Que sempre foi condenada pela religião e também, em determinado momento, pela ciência (justamente quando a ciência e religião caminhavam juntas). Alias, para terem ideia, até a masturbação, segundo a ciência, algumas décadas atrás era a causa da epilepsia, poderia ter perda de sangue e em alguns casos até levar a morte. Isso para termos ideia do quanto já fomos errados em diversos conceitos, inclusive cientificamente (e sim, isso esta em livros médicos respeitados de poucos séculos atrás).

Logo, neste cenário humano, se você for estudar a homossexualidade, verá que o preconceito é muito maior do que imaginamos. Felizmente, consegui colocar tudo isso em um livro de fácil acesso e leitura, chamado O ARMÁRIO e que já vendeu mais de 4 mil exemplares. O livro, dividido em duas partes, fala sobre a minha descoberta, focada apenas na minha “saída do armário” (afinal, minha vida não é diferente da de muitos) e a segunda, mais científica, faz um breve panorama histórico sobre a religião, ciência, família, psicologia e os processos psíquicos que são envolvidos nestas questões do preconceito, incluindo a homofobia internalizada (tão comum em homossexuais, até mesmo nos “assumidos”) e a questão muito pertinente do machismo.

E não para por ai. Como me formei em psicologia, e esse sempre foi o meu mal estar da formação, faço uma crítica feroz aos estudantes e formados de psicologia quando o tema é a homossexualidade. Infelizmente, nas faculdades de psico, não é dado a disciplina de sexualidade humana. Logo, o preconceito, a ignorância e a desinformação também paira por lá (eu mesmo não tive e sei que muitos não tiveram, não tem e nem terão!). O que é ruim, afinal, muitos homossexuais acabam parando em consultórios psicológicos com dúvidas relacionadas as suas questões sobre a orientação sexual e nem todos os profissionais estão preparados para melhor atendê-lo. Como também cito no O ARMÁRIO o profissional, com toda a sua formação, terá ferramentas capazes de atender muito bem um homossexual em seu consultório clínico, mas não compreenderá toda a vivência homossexual, seus conflitos e pode acontecer, como acontece, deste profissional pertencer a alguma religião que condena a homossexualidade e, sem perceber, também condená-la em seu paciente.

Sim. Novamente, como cito no meu livro, um professor de uma faculdade de psicologia em São Paulo, uma faculdade renomada inclusive, recentemente disse que o “homossexualismo” era uma doença para quase 80 alunos do quarto ano do curso de psicologia. Isso agora. Não falo de décadas atrás. Por outro lado, existem diversos profissionais sérios e capacitados para falar com propriedade quando o tema é psicologia e a homossexualidade. Conheço um psicanalista, por exemplo, que tem um trabalho acadêmico internacional dentro deste tema. E isso é realmente fantástico.

Logo, devemos ter muita atenção quando realizarmos estudo/pesquisas que envolvem estes dois temas: psicologia e a homossexualidade. Como a própria Internet, existe um mar de informações desencontradas e é justamente por isso que precisamos ter boas referências, bons livros, bons estudos e achar um bom caminho, onde a homossexualidade é vista como ela é de fato: apenas uma vertente saudável da sexualidade humana.

E que a psicologia, estudantes, formados, professores e profissionais da área, comecem a deixar seu preconceito de lado e estudar esta parte humana que, querendo ou não, faz parte do ser humano. Somos seres completos e, por isso, sexualizados.

Fabrício Viana*

*Fabrício Viana é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT, entre eles O Armário (sobre a homossexualidade), Ursos Perversos (contos), Orgias Literárias da Tribo (coletânea premiada duas vezes) e seu mais recente sucesso chamado Theus (romance gay). Seu site com suas redes sociais é www.fabricioviana.com

 

Entre gays e “não gays” encontramos diversos indivíduos considerados “neuróticos” ou com algum desequilíbrio emocional. Infelizmente isso é “quase” comum nesta sociedade nem tão boa como imaginamos.

Claro que a homossexualidade, em si, não é o fato dessa desordem, afinal, hoje sabemos que ela não é considerada doença pela comunidade médica e científica (a homossexualidade é apenas uma expressão natural da sexualidade humana, e apenas isso!). O que causa a neurose são os conflitos que o indivíduo possui entre seus desejos (ID) e o que a sociedade impõe (superego), que faz com que o mesmo (ego) se torne fragilizado.

Se a sociedade não fosse tão preconceituosa e os homossexuais não aprendessem desde pequeno que seus desejos são “errados” (isso gera inclusive uma homofobia internalizada neles), é muito provável que muitas neuroses deixariam de existir. Isto é, nem seriam criadas.

Entretanto, quanto maior o desejo e quanto mais reprimido ele for pela sociedade (ou mesmo pelos pais), mais forte se torna o ciclo “neurotizante”, ao ponto de, com o tempo, podendo apresentar reações psicossomáticas, psicomotoras (famosos “tiques nervosos”), de isolamento, confusões mentais e até psicoses (loucura). Entre outros sintomas de desequilíbrio mental, como um dos casos que cito no meu livro sobre a homossexualidade chamado O Armário:

Para termos uma ideia mais precisa do quanto complicado é viver uma vida dupla, de mentiras e com grande desperdício de energia psíquica, vamos a um caso bem interessante de um rapaz. Noivo e com uma vida bastante conturbada, ele começou a criar – para sua futura esposa, amigos e familiares – desculpas para sair à noite, conhecer rapazes e ter seus encontros puramente sexuais (afinal, é a única coisa que poderia fazer nestas suas breves saídas – saciar seus desejos). Porém, a frequência com que saía aumentava ao ponto dele precisar criar histórias e personagens para suas desculpas, para que ninguém desconfiasse da verdade. A mais utilizada era a de que ele estava indo para a casa de um colega de trabalho resolver pendências, colega que só existia em sua mente. Para que a desculpa não fosse sempre a mesma, ele inventou uma filha desse colega, e que sempre o ajudava levando-a para o hospital (pois ela fazia um longo tratamento, segundo ele). Quando essa história também se saturava, ele criava outro personagem, um outro amigo de trabalho, um outro parente deste colega, uma tia com que tinha perdido contato desde pequeno, mas que morava em outra cidade, e por aí foi. Em apenas dois anos, esse rapaz se encontrava em uma situação muito complicada. Ele criou tantos personagens e tantas histórias em sua mente, para dar as desculpas, que foi parar em um tratamento psicológico em estado grave (quase de psicose) com o objetivo de tentar separar quem de sua vida era real e quem era imaginário (criado por sua mente), pois ele não sabia mais ‘quem era quem’.(página 97 e 98, livro O Armário)

Logo, a matemática de uma vida dupla é simples: se você tem uma pilha e usar metade de sua energia para uma vida saudável e a outra metade com o objetivo de “esconder-se”, é diferente de usar a mesma pilha/energia 100% ao seu favor, isto é, “fora do armário” e sendo você verdadeiramente em qualquer lugar com todos os seus desejos e com uma vida afetiva e sexual plena e satisfatória. Algumas empresas já sabem disso, segue mais um trecho do meu livro:

Algumas empresas de recursos humanos já sabem, por exemplo, que um rapaz no trabalho que não é assumido gasta muito mais energia escondendo seus desejos e vida homossexual do que outro – também homossexual – que não precisa escondê-los. Optam por aquele que é assumido, afinal, ele produzirá muito mais que o outro.

Claro que chegar a este ponto não é algo inatingível, acredito que, se muitos conseguem, você e qualquer pessoa também pode conseguir. Tudo bem, sabemos que isso não acontece de um dia para outro. Tudo depende de você e do caminho “lento” ao objetivo final, mas se você não começar a batalhar por sua vida e por sua felicidade, quem irá? Lembre-se de que, a única pessoa que sabe o que é melhor para você é você mesmo. Se escolher “sair do armário“, ótimo, parabéns e ao mesmo tempo esteja preparado para as grandes dificuldades que irá encontrar. Se escolher continuar “no armário”, ótimo também. Mas você não acha que vai desperdiçar grande energia onde poderia investir?

Digo isso pois é comum homossexuais assumidos, quando chegam ao seu “último estágio de aceitação”, pararem e pensarem: “como é gostoso ser quem realmente eu sou, não ter que esconder minha orientação sexual para amigos, familiares, colegas de trabalho ou estudo”. Tiro isso por mim e por muitos amigos, de todas as idades, que vez ou outra, comentam sobre. Lembrando que, não basta apenas sair do armário, também precisa – e isso é muito importante – livrar-se completamente da homofobia internalizada, que muitos homossexuais, mesmo assumidos, carregam consigo. Falo também no meu livro. Lembrando que ele não é vendido em livrarias, apenas neste link (144 páginas) ou a versão digital no site da Amazon Brasil

Portanto, o que vale, realmente, é refletirmos sobre tudo isso. E divulgar essa matéria para o máximo de pessoas possíveis. Precisamos ter uma vida autêntica antes de tudo.

Abraços fraternos,

 

Fabrício Viana*

*Fabrício Viana é jornalista, bacharel em psicologia com pós em marketing, autor de vários livros com temática LGBT, entre eles O Armário (sobre a homossexualidade), Ursos Perversos (contos), Orgias Literárias da Tribo (coletânea premiada duas vezes) e seu mais recente sucesso chamado Theus (romance gay). Seu site com suas redes sociais é www.fabricioviana.com