quarta-feira, agosto 23, 2017
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Foto Ilustração: PixaBay

Parece que não, mas diversos casos de LGBTfobia surgem todos os dias sem aparecer na mídia. Pelo menos não foi o caso de um líder religioso acusado de estupro a uma jovem lésbica integrante da Igreja Batista em Rio Doce, em Olinda (PE), que graças a uma liminar ganhou sua liberdade no final da semana passada. Sua saída da prisão foi marcada por protestos de entidades civis, que pedem a revogação da decisão judicial. Do outro lado, a vítima apresentou nesta sexta-feira (04) no Ministério Público de Pernambuco (MPPE) nota em que se declara perseguida pelos fiéis da igreja que defendem o religioso.

O crime, que aconteceu em 2015, só veio a tona quando a vítima contou a uma amiga em 2016 e soube que ela não foi a única vítima. Segundo ela, o pastor foi até sua casa com o pretexto de chamá-la de volta as atividades de culto, das quais ela se afastou. Ele dizia que escutou boatos que ela só se afastou porque estava de caso com outra mulher. Em seguida pediu para usar seu banheiro, da onde voltou nu, com o pênis ereto e com uma camisinha nele. Ele a arrastou pelo quarto e disse que isso seria para que ela “começasse a gostar de homem”.  Ela relutou e conseguiu pelo menos evitar a penetração.

Na sexta, ela compareceu acompanhada dos seus pais na Sede das Promotorias do MPPE. Lá, a jovem se reuniu com a promotora de Justiça Henriqueta de Belli e advogados da ONG Gestos e do Instituto Boa Vista para relatar o caso e uma declaração de acompanhamento psicológico.

Segundo Henriqueta ao Ultimo Segundo, “A ideia da reunião foi informar e convocar a sociedade civil, por meio das ONGs que trabalham com violação de direitos humanos, femininos e LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais) e pela imprensa, para dar ciência do julgamento do mérito, que dever ocorrer em breve. Além disso, a audiência do caso ocorrerá ainda esse mês

Ainda segundo relato da vítima, o pastor a ameaçou, dizendo que deveria se calar, já que ninguém acataria a versão dela sobre o estupro. Em seu relato ao MPPE, a moça chorou dizendo que vive sendo xingada em locais públicos e até mesmo na escola pelos fiéis do pastor. E a única coisa que ela pede é justiça.

No Brasil, a homossexualidade foi considerada doença até 1990. Atualmente, campos de concentração para torturar e “curar” pessoas LGBT pode parecer algo distante, mas ainda é uma realidade que nos assombra. Paola Paredes é fotógrafa, lésbica e recentemente conseguiu entrar em um centro de cura gay, no Equador, e reproduziu tudo em imagens.

O projeto intitulado “Até que você mude”, nasceu depois de Paredes ouvir alguns relatos de pessoas que afirmaram ter passado por tratamento de cura gay em seu país. As “clínicas” onde acontece a ”cura” são ilegais, mas funcionam normalmente por estarem disfarçadas de centro de tratamento para alcoólatras e viciados em drogas.

A fotógrafa só teve acesso depois de fingir interesse no procedimento, e descobriu que lá, os pacientes eram sujeitos à tortura física e emocional, que incluía longos estudos bíblicos e estupro corretivo.

Portando uma câmera escondida, a fotógrafa conseguiu entrar no estabelecimento. A fim de proteger a identidade das vítimas, ela decidiu que não divulgaria as imagens, mas para que a denúncia não fosse perdida, recriaria as imagens, sendo ela mesmo a protagonista.

Segundo uma das entrevistadas era praticamente impossível dormir no local. Quando não era a insônia, o que as mantinham acordadas era a alta música católica colocada para abafar o barulho da tortura com outras mulheres.

Ao entrar em qualquer um dos cômodos, as mulheres encontram artefatos ou um altar para Jesus ou Maria

O momento de “diversão” das mulheres mantidas no local é a maquiagem da manhã que é feita todos os dias. Durante a maquiagem, que é uma atividade obrigatória, uma mulher fica atrás da paciente controlando o uso correto dos produtos. Além disso, elas são obrigadas a andar de saia e salto alto para ser “uma mulher de verdade”.

Mulheres são obrigadas a se maquiar todas as manhãs.

Para Paola Paredes, famílias que não aceitam a sexualidade de seus membros acabam contratando os serviços da clínica como forma de escapar do “problema” que é ter um LGBT na família. “Se minha família não tivesse me aceitado quando eu me assumi, provavelmente eu estaria em um desses centros também.”, disse ela em uma entrevista.

Embora pratiquem atos desumanos, os funcionários do local acreditam que estão fazendo a “obra de Deus” salvando almas perdidas de ir pro inferno.

No Brasil, caso semelhante aconteceu com a ONG chamada MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia). Ela durou 15 anos até que um de seus fundadores, hoje gay assumido e ativista, foi para a imprensa e disse que tudo era uma grande farsa. Parte dessa história foi retratada como ficção no romance gay de Fabrício Viana chamado Theus: do fogo à busca de si mesmo que também aborda outras questões homoafetivas tais como a saída do armário, aceitação e psicologia. Para o autor, embora tenhamos mais visibilidade e entendimento das questões ligadas a orientação sexual e identidade de gênero, clinicas e fazendas de cura gay ainda existem e são terríveis para qualquer ser humano.

Para mais fotos de Paola, visite: www.paolaparedes.com

O MPMG (Ministério Público de Minas Gerais) recebeu denúncia contra a divulgação de uma palestra proferida por Isildinha Muradas que prometia prevenir e reverter a homossexualidade. Postado no Facebook, o evento promovido pela Igreja Batista Getsêmani, com o tema “Como prevenir e reverter a homossexualidade”, em Belo Horizonte, causou grande revolta.

Em entrevista ao portal G1, Isildinha Muradas, que também é pastora, disse que tudo não passou de um grande erro. Que a arte foi feita por outro pastor. Que ela não é psicopedagoga e que trabalha como dentista. Porém, na denúncia, ela será investigada também pelo suposto exercício ilegal da profissão, já que, em uma entrevista em vídeo anterior que pode ser assistida aqui ao ser perguntada, ela diz que é pedagoga sim (caso removam, já salvamos uma cópia para ajudar no processo).

curagay
Cartaz divulgado. Depois da revolta nas redes sociais, ele foi removido.

O caso também chegou ao conhecimento da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil de Minas Gerais. Segundo Juliana Lobato, presidente da comissão, a divulgação da palestra caracteriza claramente uma postura discriminatória da igreja e poderá caber ações civis e criminais.

A Associação Brasileira de Psicopedagogia afirmou que repudia a temática da palestra proposta, que não se embasa na psicopedagogia qualificada academicamente e comprometida com o exercício profissional responsável. Já o Conselho Regional de Psicologia de Minas (CRP-MG), deixou claro que repudiam o tema da palestra e qualquer tipo de discriminação à orientação sexual e identidade de gênero. As duas entidades também afirmaram que não reconhecem Isildinha Muradas como membro.