Tema, slogan e manifesto da 25ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo

HIV/Aids: ame + cuide + viva +

Em 2020, o mundo curvou-se diante da descoberta de um novo coronavírus, que interrompeu sonhos, vidas e mexeu com o cotidiano de bilhões de pessoas ao redor do planeta. Aprendemos a enxergar pessoas por trás do amontoado de números estatísticos de óbitos, conhecidas, anônimas, próximas ou distantes. Infelizmente, a pandemia da Covid-19 ainda não acabou, apesar de caminhar para uma solução, graças às vacinas desenvolvidas em tempo recorde. Mas essa pandemia, mesmo sendo a maior dos últimos 100 anos, não é a única crise sanitária que enfrentamos e precisamos nos preocupar. Neste ano, completamos 40 anos de convivência com a epidemia de HIV/Aids, que continua infectando pessoas e tirando milhares de vidas a cada ano, conhecidas, anônimas, próximas ou distantes, incluindo uma expressiva parte da população LGBT+. É por esse motivo que o tema da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo 2021 será HIV/Aids: ame +, cuide +, viva +.

Embora não se propague pelo ar, pela saliva, pelo toque ou pelo beijo, como acontece com o vírus da Covid-19, o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) é cercado de estigmas e preconceitos desde 5 de junho de 1981, quando foi publicado o primeiro diagnóstico, nos Estados Unidos, de cinco homens com Aids (doença causada pelo HIV, que interfere na capacidade do organismo de combater infecções e outras doenças). Tristemente, esse medo, o preconceito e a discriminação também estão entre as pessoas LGBT+, o que nos tem afastado de nós, de um debate tão necessário e de cobranças urgentíssimas. Mas nem sempre foi assim.

No início, por ter sido identificada entre homens gays, a Aids foi imediatamente associada à homossexualidade masculina, chegando a ser chamada de câncer gay e peste gay. A reação foi a união entre gays e lésbicas com manifestos, protestos e ações que ficaram para a história do movimento gay norte-americano, e serviria de modelo para outros países. Um dos objetivos era combater e reduzir o estigma e a discriminação, causada pela desinformação e o discurso religioso, disseminado para fortalecer a ideia de culpa e de pecado sobre a natureza da nossa sexualidade. O outro era reivindicar por medicamentos e pesquisas para encontrar uma cura, que ainda não veio.

Em 1982, quando surgiram os primeiros casos de Aids no Brasil, membros da comunidade homossexual, que já se organizava no país, tiveram papel fundamental no desenvolvimento das primeiras políticas públicas de enfrentamento à epidemia. O próprio reconhecimento das pessoas transexuais e travestis no Brasil se deve, entre outros fatores, ao movimento em torno da epidemia de HIV/Aids, cujo tema dava abertura para as falas de existência delas. Logo, não é exagero afirmar que, assim como ocorreu nos Estados Unidos e em outros países, a comunidade LGBT+, ou parte dela, contribuiu para a formação do atual movimento HIV/Aids. Ao mesmo tempo, os incentivos vindos das políticas públicas para HIV/Aids fomentaram e fortaleceram a organização do movimento LGBT+.

Logicamente, a pauta HIV/Aids não é exclusiva da população LGBT+. Desde os primeiros anos da epidemia, sabe-se que a dinâmica de transmissão do HIV está muito mais relacionada às vulnerabilidades acumuladas por uma pessoa, e fatores de comportamento de risco ao qual muitas são submetidas, do que ao simples fato de pertencer a um grupo específico. No entanto, seria leviano não considerarmos esse tema prioridade para a nossa comunidade quando analisamos os dados.

Segundo o Boletim Epidemiológico de 2019 do Ministério da Saúde, 42% do total de quase 250 mil novas infecções, ocorridas entre os anos de 2007 e 2019, foram entre homens gays ou outros homens que fazem sexo com homens, mulheres transexuais e travestis. O mais alarmante é quando a mesma fonte registra anualmente, desde 2016, mais de 40 mil novas infecções pelo HIV. Outros números que nos dão uma visão mais global do problema vêm do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). Em 2019, havia 38 milhões de pessoas vivendo com HIV no mundo, cerca de 1,7 milhão se infectaram naquele mesmo ano, ao mesmo tempo em que 690 mil morreram por doenças relacionadas à Aids.

Quando voltamos os olhos para o Brasil, descortinamos uma outra realidade; a desproporcionalidade de prevalências do HIV entre alguns segmentos populacionais. É o que diz os dados do Ministério da Saúde de 2016 ao registrar uma taxa de prevalência de 0,40% na população geral e outra de 18,4% entre gays e outros homens que fazem sexo com homens. Nas mulheres transexuais e travestis, essa taxa dispara para 30%, demonstrando uma maior vulnerabilidade dessa população ao vírus. Um índice muito alto, mesmo considerando haver um maior contingente populacional de homens gays.

Felizmente, o diagnóstico positivo para HIV deixou de ser uma sentença de morte com o aprimoramento dos antirretrovirais das últimas duas décadas. No Brasil, esses remédios são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1991, depois de uma batalha na justiça. Como resultado dessa evolução, o número de mortes no mundo, relacionadas à Aids, reduziu em até 60% desde 2004 e 39% desde 2010, segundo o Unaids. Viver bem e saudável com HIV passou a ser perfeitamente possível, a ponto de o vírus tornar-se indetectável e intransmissível. Então por que ainda morrem 11 mil pessoas por ano no Brasil por complicações relacionadas à Aids?

Uma das respostas é a desinformação e o distanciamento que temos em relação ao tema. Por influência de questões morais, de estigma, preconceito e discriminação continuamos nos privando de informações e práticas capazes de salvar as vidas de muitas pessoas, em especial as LGBT+. O Ministério da Saúde estima em quase 1 milhão de pessoas vivendo com HIV no Brasil, LGBT+ ou não. Dessas, mais de 130 mil não sabem que vivem com o vírus. Muitas sequer tiveram a oportunidade de fazer um teste e saber seu diagnóstico.

Outra explicação é o racismo estrutural, que domina a nossa sociedade e afeta de forma desproporcional determinados segmentos da população. Assim como vimos ocorrer na pandemia da Covid-19, os dados do Boletim Epidemiológico de 2020 do Ministério da Saúde mostram que 60,3% das mortes em decorrência da Aids são de pessoas pretas e pardas, enquanto 39,2% de brancas. Ao comparar os percentuais nos últimos 10 anos, verifica-se uma queda de 23,8% na proporção de pessoas brancas. No mesmo período, houve um crescimento de 25,3% na proporção de óbitos da população negra em decorrência da Aids.

Um país que tem o SUS como política pública deveria garantir acesso à saúde de forma universal e gratuita, sem distinção social, racial ou geográfica. Isso significa ampliar as campanhas de informação de prevenção combinada, de tratamento e garantir alcance irrestrito aos métodos profiláticos, a exemplo da PrEP (profilaxia pré-exposição) e da PEP (profilaxia pós-exposição), entre outros. Lamentavelmente, desde que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 95 foi aprovada, em 2016, pelo Congresso Nacional, a pedido do Poder Executivo, o que temos visto é o início de um processo de sucateamento da saúde e de políticas públicas para HIV/Aids. Pois a PEC-95 limitou o crescimento das despesas do governo brasileiro até 2037.

Contudo, o nosso maior problema continua sendo a falta de amor, de cuidados, de acolhimento e empatia com quem vive com HIV/Aids. Prova disso está no Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV/Aids de 2019, realizado pelo Unaids nas cidades de São Paulo, Recife, Salvador, Porto Alegre e Manaus. Na média, cerca de 47% das pessoas entrevistadas nessas cidades revelaram terem sido alvo de comentários ou fofocas sobre sua soropositividade. Quando a difamação é dentro da família, essa média é de 42%. Pelo mesmo motivo, a média de assédio verbal é de 19%.

É nesse contexto que a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), com a contribuição de suas pessoas associadas, de ativistas independentes e representantes de outras entidades, escolheu o tema HIV/Aids: ame +, cuide +, viva + para a 25ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Convocamos toda a comunidade LGBT+ e pessoas aliadas a se unir em solidariedade às pessoas que vivem com HIV/Aids e às que se encontram em situação de vulnerabilidade a esta epidemia sem medo, sem estigmas e preconceitos. Precisamos de uma sociedade mais humana e para isso também precisamos lutar e exigir por direitos à saúde.

Com o slogan AME +, CUIDE +, VIVA + complementando o tema, convidamos você a compartilhar conosco essa responsabilidade. Amar mais, de maneira positiva e sem preconceitos. Cuidar mais, no cuidado com a outra pessoa, no autocuidado com a saúde. Viver mais, valorizando e celebrando a vida na certeza de que somos mais fortes quando estamos em comunidade. É quando nos conectamos que conseguimos nos proteger das atrocidades que ameaçam nossa cidadania e nossos direitos, em especial o de ser quem somos, de amar quem amamos e da maneira que escolhemos e queremos viver. Sem esquecer que é imperativo o entendimento de toda a sociedade da importância desse tema para lutar conosco em defesa do SUS e das políticas públicas de combate ao HIV/Aids.

Não é preciso ser uma pessoa negra para ser antirracista. Não é preciso ser uma pessoa LGBT+ para ser contra a homofobia (preconceito contra gays e lésbicas), a bifobia e a transfobia. Assim como também não é preciso viver com HIV para ser contra a sorofobia (termo que define o preconceito e o estigma contra quem vive com o HIV).  O HIV/Aids não pode e não deve ser uma justificativa adicional para todas essas fobias injustificáveis. A união e a empatia entre nós é a única maneira de nos fortalecermos para enfrentar essa LGBT-fobia estrutural imposta e que vem sendo institucionalizada por um governo federal que insiste em pautas ideológicas.

Ao escolher falar abertamente sobre esse tema, a Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo convoca toda a sociedade, em especial a população LGBT+, a impedir que o HIV/Aids seja usado para reforçar o discurso homo-bi-transfóbico. Precisamos acolher não apenas o tema, mas principalmente todas as pessoas vivendo com HIV/Aids. Nossa proposta é resgatarmos a força do passado, que nos uniu no início da epidemia, lá nos anos 1980, para seguirmos em frente amando mais, cuidando mais e vivendo mais, sem estigmas.

Serviço

25ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo
Tema e slogan: HIV/Aids ame + cuide + viva +
Dia 06 de Junho de 2021 de forma virtual por conta da Pandemia
Evento oficial no Facebook: https://www.facebook.com/events/357900524910000

nota: os termos “movimento gay” e “comunidade homossexual” usados no texto obedecem aos fatos históricos e cronológicos da época, uma vez que o movimento LGBT+ evoluiu a partir da luta por direitos de gays e lésbicas. Essas duas terminologias foram adotadas a partir do final da década de 1960 com o movimento de liberação “gay” nos Estados Unidos, em contrapartida ao termo homossexual, que passara a ter um cunho pejorativo e clínico. A sigla LGBT ainda não existia e só começa a ser utilizada a partir da segunda metade da década de 1990 em substituição ao GLB (por aqui, usava-se informalmente GLS – gays, lésbicas e simpatizantes) que, por sua vez, começava a substituir os termos “movimento gay” e “comunidade homossexual” para dar visibilidade a outras orientações sexuais e, mais tarde, outras identidades de gênero como as pessoas travestis e transexuais. No Brasil, a sigla LGBT começou a ser usada e foi adotada oficialmente durante a 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais em 2008, seguindo outros países. Antes disso era GLBT.


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Publicado por: Fabrício Viana
Fabrício Viana é o jornalista (MTB 80753/SP) responsável pela assessoria de imprensa e comunicação da APOGLBT SP, ONG que realiza a maior Parada LGBT do mundo. Para a página de Imprensa, aqui. Contato com a Diretoria da ONG, aqui. Seja um Associado/a, aqui